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Luiz Maganhoto e Daniel Casagrande - A conquista de uma família

- Luiz Maganhoto e Daniel Casagrande - A conquista de uma família

O arquiteto Luiz Maganhoto e o designer Daniel Casagrande certamente formam uma das duplas mais badaladas do Paraná (e do Brasil) quando o assunto é Arquitetura e Decoração. Em uma união homoafetiva há 16 anos (sendo 15 de trabalho conjunto), já conquistaram diversos prêmios. Há nove anos ficam em primeiro lugar no Paraná na premiação da revista Kaza de São Paulo, há 12 anos conquistam o primeiro lugar nas premiações da Ponto de Apoio, já receberam diversos troféus de Casa Cor PR como melhor ambiente, mais criativo, mais ousado, além de diversas premiações de empresas e fornecedores.

Tudo isso lhes rendeu viagens para a Tailândia, Dubai, Austrália, Catar, EUA (Miami, Chicago, Nova York, Las Vegas), Istambul, Turquia, Japão, México, Argentina...

Mas talvez a maior conquista de ambos seja a adoção dos dois filhos: Antonella, hoje com 3 anos, que estuda em uma escola bilíngüe, e Lorenzo, que quando completar 2 anos vai pra mesma escola que a irmã.

Inspirados em seus próprios nomes (Luiz Antônio e Daniel Antônio) batizaram a filha de Antonella. Já Lorenzo veio do filme “O Óleo de Lorenzo”, que segundo Daniel é “um filme lindo, que traz todo um contexto de luta por sobrevivência”.  São pais em tempo integral: não possuem babá no dia a dia e contam, quando precisam, com a ajuda das avós.

Nessa conversa franca e exclusiva, eles falam sobre adoção, homossexualismo, profissão, sonhos, lazer e carreira.

Where Curitiba- Com tantos prêmios e viagens, tem algum lugar que gostariam de conhecer e ainda não tiveram a oportunidade?

Daniel – Camboja e Índia.

Luiz- Eu gostaria de conhecer o Marrocos e a Grécia

WC- E qual mais gostaram?

Luiz- O Japão é particularmente uma dose de incentivo pra humanidade. O que eles fizeram em 70 anos, após a Segunda Guerra, onde o país foi totalmente destruído, não fizemos em 500 aqui no Brasil. Em termos de urbanismo, arquitetura, paisagismo e de relações humanas, não temos aqui. Realmente me impressionou.

Daniel- Capadócia. Não só pela história, mas a relação deles com Deus é impressionante, e o passeio de balão é arrebatador!

WC- Falando em religião, vocês são religiosos?

Luiz- Sim, sou católico.

Daniel- Eu frequento a Igreja Batista.

WC- E como é na Igreja que frequentam o tabu do homossexualismo?

Luiz- Na minha igreja é aquela coisa: não falamos que somos e o padre não pergunta. Nós vamos para conversar com Deus, não pra dar satisfação às pessoas. Contribuo com o dízimo, as pessoas nos respeitam e gostam da gente.

Daniel- Da mesma forma com a evangélica. Existem, lógico, algumas doutrinas da igreja, que se for ver exatamente o que está escrito no papel, você não frequentaria. Alguns evangélicos veem o homossexualismo como um ato ilícito perante Deus. Faço minhas contribuições pra Igreja, mas não me interessa o que eles fazem com o dízimo. Eu faço a minha parte e meu compromisso é com Deus.

Luiz- Sim, e educamos nossos filhos dessa forma. Toda noite eu rezo com a Antonella que já está na fase dos questionamentos, de querer saber quem é o Papai do Céu.

Alguns vêem o homossexualismo como um ato ilícito perante Deus. Faço minhas contribuições pra Igreja, mas não me interessa o que eles fazem com o dízimo. Eu faço a minha parte e meu compromisso é com Deus. (DANIEL)

WC- Já que ela começou com as perguntas, como é a relação com o fato de ela ter dois pais? Ela já questionou que não tem mãe?

Luiz- Não. Ela sabe que tem dois pais, isso está bem claro. Eu não sei se algum amiguinho na escola já questionou o fato de ela não ter uma mãe, acredito que não, porque ela não nos questionou ainda. A referência feminina que ela tem é a avó, tanto é que quando ela se sente ameaçada ela fala: “vou contar tudo pra minha avó”.

WC- Quando vocês se “descobriram” homossexuais? Vocês logo assumiram pra família?

Luiz- Eu sempre fui muito reservado. Quando saí de casa pra morar fora, com 18 anos, meus pais desconfiaram. Meu pai acho que sempre soube. Era mais difícil conversar sobre isso com a minha mãe. Tanto é que pouco antes do meu pai falecer eu falei pra ele. Ele disse: “filho, o pai sempre soube. A única coisa que te peço é que você encontre uma pessoa que te faça feliz e que você seja feliz. Só isso. Não sofra”. A minha mãe no começo não aceitava, acho que ela se sentia culpada por ter gerado alguém que na cabeça dela não correspondia aos padrões estabelecidos. Hoje é diferente, tem uma relação muito boa com o Daniel.

Daniel- O meu caso foi mais complicado, fui criado na Igreja Evangélica. Com 18 anos tinha namorada, cheguei a ficar noivo, mas sentia me enganando e enganando as pessoas, chorava muito. Me achava a “ovelha negra”. Nunca bebi, fumei ou usei drogas. Até porque tive uma situação muito complicada com meu pai que bebia muito, de maltratar a mãe, criar traumas nos filhos. Então eu via que aquilo eu não queria para mim. Meu pai morreu “sozinho”, no enterro dele tinham seis pessoas, nem a família dele de São Paulo veio pro enterro. Isso foi uma lição pra mim. Mas ao mesmo tempo eu me sentia culpado por ser gay. Até que resolvi assumir isso.

WC- Já na infância vocês se sentiam “diferente” dos outros meninos?

Luiz- Sim, na infância. É algo que nasce com você.

Daniel- Eu acho que desenvolve. Tem um filme muito bom chamado “Vamos falar sobre sexo” do Lian Neeson, que ele faz uma escala pra todo homem: de 1 a 7 de homossexualidade. Assista, é interessante. Então acho que a pessoa não nasce homossexual, ela desperta.

Luiz- Eu já acho que você tem um gene, algo assim, uma pré-disposição genética para isso. Você já vem com essa informação que pode despertar ou não. Eu lembro que estava no primário e já admirava a figura masculina. Isso está dentro de você.


WC- E quando vocês decidiram adotar?

Daniel- Há um tempo eu queria, o Luiz não. Depois ele queria e eu não. E quando voltamos da Tailândia, em 2012, decidimos adotar.

WC- E quanto tempo levou o processo?

Daniel- Entre começar o curso e estar apto com o CNA, que é o Cadastro Nacional de Adoção, aprovado pelo juiz e tudo, foram oito meses, depois mais cinco meses até vir a Antonella.

WC- E como é a questão judicial pra casal homoafetivo adotar? É a mesma coisa?

Luiz- Mesma coisa, não faz distinção nenhuma. São favoráveis. Tem muitos pares homoafetivos mulheres que adotam também. Antigamente tinha tabu. Hoje já não é mais assim.

WC- O motivo de adotar o segundo filho foi pra dar um irmão pra Antonella?

Luiz- Quando fizemos o cadastro colocamos que desejávamos uma menina e um menino que poderia ter irmãos. Só que veio a Antonella somente. Então depois veio o Lorenzo, pois a justiça estava cumprindo com o nosso pedido.

Daniel- E é muito legal porque parece que eles sempre estiveram com a gente.

WC- A Antonella nasceu prematura.

Luiz- Sim, nasceu de seis meses com 600 gramas. E teve cranioestenose também.

Daniel- Um dos motivos inclusive de ela ter vindo “antes” para nós foi por causa da cirurgia, porque ninguém queria ficar com ela.

Luiz- Sim, pelo custo da cirurgia e o risco, porque se perde muito sangue. Um dos requisitos para adotarmos ela era ter que fazer a cirurgia imediatamente.

Daniel- Claro que ficamos assustados. Conhecemos ela no dia que trouxeram para Curitiba. Era muito pequenininha, magrinha. Com um ano e três meses tinha sessenta e poucos centímetros, 6 kg, toda manchadinha. Isso assustou, e ela tinha quase 5 ou 6 graus de miopia. Hoje a miopia dela está quase zerada. A cirurgia foi grande, cara, fizemos tudo particular. Ela perdeu muito sangue, mas o resultado foi um sucesso. Já tinha passado do prazo de fazer a cirurgia, a indicação é até 9 meses, ela fez com mais de um ano.

Luiz- Quinze dias depois ela não tinha mais hematoma, manchas. Pra você ver o quanto ela precisava fazer isso. Foi libertador pra ela: existe a vida dela antes e depois da cirurgia.

WC- E com o Lorenzo foi mais tranquilo?

Daniel- Foi. Assim, a mãe da Antonella estava tomando abortivo, ela nasceu de seis meses, ela foi pro hospital com contrações e o médico conseguiu fazer uma cesárea. Tirou ela com vida. No mesmo dia os pais fugiram. Demoraram um ano pra encontrar a mamãe dela pra assinar os papéis e liberar pra adoção.

Luiz- Aí alteramos o nosso pedido na vara da infância porque foi um desgaste muito grande, ficamos muito nervosos. Fizemos um pedido pra vir menino, que não precisasse de grandes intervenções cirúrgicas. Sofremos demais. Quando a Antonella voltou do centro cirúrgico parecia um bonequinho de cera, de tanto que perdeu sangue.

Daniel- Ela fez transfusão duas vezes inteira de corpo. A cabeça inteira inchada, cheia de tubos. Nossa, a gente não sabe nem como ela sobreviveu no útero da mãe. Ela é uma guerreira. Ela vai ser foda!

Luiz- Então não queríamos passar por tudo isso de novo.

Daniel- É, a mãezinha do Lorenzo teve ele com 17 pra 18 anos, já tinha três abortos e três meses depois do nascimento dele ela morreu: foi assassinada por causa de drogas. Então devido ás condições precárias da família ninguém quis assumir a responsabilidade e ele foi pra adoção.

Ela sabe que tem dois pais, isso está bem claro. (...) A referência feminina que ela tem é a avó. (LUIZ)

WC- Foi com a vinda deles que decidiram trocar o loft e construir uma linda casa?

Luiz- Sim. Nós tínhamos amigos que falavam: “Por que vão adotar? Vocês podem viajar sem se incomodar. Pra que filhos? Criar filho dos outros, com problema”. Bem assim que falaram pra gente, até uns amigos se afastaram depois que adotamos. Só que nós queríamos deixar pra alguém o legado daquilo que a gente aprendeu. Tenho que dividir com alguém, não queríamos que o aprendizado morresse conosco.

Daniel- Fizemos a casa pra nós, pra nossa família, pro conforto da nossa velhice. Eles vão usufruir de tudo isso, mas eles vão ter que batalhar por eles também.

Luiz- Querem estudar? Vamos dar todo o respaldo do mundo. Vamos batalhar pra que pratiquem esportes e estudem, vão viajar, fazer intercâmbio. Ah, não querem estudar? Então vão trabalhar. Não quero ninguém aqui dentro da nossa casa de pijama ao meio-dia. Mas certamente, se não tivéssemos eles, acho que não construiríamos essa casa.


WC- No trabalho: quem faz o projeto, quem cria? Qual a função de cada um?

Daniel: Geralmente fico mais com a captação, contato e acompanhamento. A parte de criação existe um consenso, mas quem senta na prancheta pra desenvolver o trabalho é o Maganhoto.

WC- Os clientes procuram a ousadia que eles podem conferir nos ambientes das mostras de decoração que vocês participam?

Luiz- Sim, eles querem o exclusivo, algo diferente e só pra eles.

WC- E quanto custa contratar o serviço de vocês?

Daniel: Fazemos desde estúdio de 30m2 e sala de 18m2 até edificações de 10, 15 mil m2. O que varia de R$ 2.500,00 um projeto a 200 mil reais. Depende do tempo que vamos dispensar, do quanto o cliente quer investir, do tipo de trabalho...

WC- E quem se arrisca na cozinha? Saem muito para jantar?

Daniel: Nós dois cozinhamos. Mas o Luiz faz mais a parte dos salgados e eu dos doces.

Luiz- Faço frutos do mar, carnes, risotos, massas. Adoro cozinhar. Faço bolo e cupcake com a Antonella, ensino ela.

Daniel- Mas para sair gostamos muito de frutos do mar e frequentamos o Bistrô do Victor. A comida da Eva é maravilhosa.

Gostamos muito de frutos do mar e frequentamos o Bistrô do Victor. A comida da Eva é maravilhosa. (DANIEL)

WC- Literatura? Livro de cabeceira?

Luiz- Eu leio muito sobre adoção, crescimento dos filhos. Ultimamente tem sido mais relacionado a essa área. E claro, sobre arquitetura e arte. Ah, adoro também livros de culinária.

WC- Cinema?

Daniel- Vamos quase todo fim de semana ao cinema. Adoramos ficção, suspense, policial, mas amamos terror.

WC- Música?

Luiz- O Daniel é bem mais musical que eu. Gosto de Frank Sinatra, Michael Bublé e Rod Stewart. E ultimamente tenho gostado dos musicais da Branca de Neve: a Antonella me faz cantar (risos).

Daniel: Gosto de Fiona Apple, de músicas dos anos 80 e 90, tipo Snap, A-Ha. Muito bom, é nostálgico.

WC- Atividade física?

Daniel: Segunda, quarta e sexta faço zumba. Amo!

Luiz: Não faço nada, sei que é ruim pra saúde, mas no Parque Barigui passo olhando pro museu. Então cuido mais da alimentação mesmo.

WC- São consumistas?

Luiz- Já fomos. Depois das crianças mudamos um pouco. Acabamos comprando mais coisas para eles e sempre fazemos aquela pergunta: “precisamos disso?”. E esse olhar diferente sobre o consumo é importante, inclusive para deixar para os filhos essa visão.

Daniel: Mas ainda gostamos de Burberry e Armani (risos). Mas olha, fiz 40 anos e queria muito fazer uma super festa, só que ainda temos os investimentos feitos na casa, então não deu, não fiz.