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Meu lixo? Problema teu!

Principal ligação entre Curitiba e a região Norte do Paraná, a rodovia BR 376, na região de Ponta Grossa foi alagada duas vezes, só este mês, porque o lixo jogado nos arroios da cidade entupiu o bueiro, fazendo a água alcançar a pista e obstruir o tráfego.  Enquanto isso, discute-se como fazer para oferecer à cidade um projeto de destinação final de resíduos sólidos que, enfim, resolva o problema. Boa parte do lixo que vai ao aterro sanitário da cidade deveria ser destinado à reciclagem (pelo menos 20% de tudo que vai para o aterro poderia ser reciclado), mas é descartado como resíduo orgânico. E, naturalmente, diante desse quadro, não falta quem critique “o sistema”, “o governo”, “esse governo” ou a empresa concessionária pela falha na solução do problema. As críticas estão focadas principalmente na suposta “falta” de uma ação para coleta seletiva de lixo porta-a-porta. Pois bem; não têm razão. Mesmo. Explico rápido: por mês, um programa da prefeitura recolhe perto de 350 mil kg de lixo reciclável, e devolve a quem coletou frutas, legumes, verduras e ovos. Esse programa não foi criado pelo governo atual e tem quase quinze anos de atuação. Funciona muito bem: o lixo é trocado por comida saudável e depois encaminhado para cooperativas de ex-catadores que organizam, prensam e revendem os materiais. A ideia de Ponta Grossa é uma réplica do câmbio verde instituído em Curitiba, muitos anos atrás, pelo então prefeito Jaime Lerner.

Mas não é só isso. A cidade de Ponta Grossa, com pouco menos de 400 mil habitantes, tem hoje 134 postos de entrega voluntária. Que nada mais são do que espaços próprios para depósito de materiais como papel, vidro, plástico e metal. Há postos desses, os PEVs, em todas as escolas municipais e centros de educação infantil, junto a todos os maiores supermercados da cidade e ainda espalhados em diversos outros lugares. Dificilmente se encontra uma vila de Ponta Grossa em que não haja uma escola municipal num raio de, talvez, 200 metros.

Dificilmente se encontra uma pessoa que não more perto, passe diante ou pelo menos tenha em seu itinerário diário ao menos um desses postos de entrega voluntária. Não se encontra, todavia, nenhuma pessoa que não produza nada de lixo. Todos produzem, em maior ou menor grau. Todos, sem exceção. E, no entanto, a ideia de que eu tenho responsabilidade pelo destino do lixo que eu estou gerando parece repugnante a muita gente. Talvez haja aí um componente social, pelo medo de ser visto pela rua carregando lixo; talvez haja uma tendência a esperar pelo governo-pai, pelo Estado-faz-tudo, para resolver os problemas de todos. E talvez exista aí apenas uma grande e incontornável distorção da auto-imagem: o sujeito produz lixo, em grande quantidade, mas acredita que é dever dos outros dar um jeito nele. É um raciocínio simples, mesmo: meu lixo é problema teu. Se não é teu, é de todos, da cidade, da prefeitura, de qualquer um. Ou seja: é um problema dos outros, não meu.

Os postos de entrega voluntária deveriam já ter reduzido em muito o volume de lixo coletado em Ponta Grossa. Quem frequenta supermercados (quem nunca?) encontra esses PEVs todas as vezes que vai até lá. Mas prefere descartar seus recicláveis junto com o lixo comum, reclamando que ninguém está indo recolher o lixo DELE em frente à sua casa. Os PEVs estão também em praças e creches, mas permanecem muitas vezes vazios. Quem mora ou passa por ali prefere deixar que o problema gerado pelo seu lixo seja resolvido pelos outros. Uns até preferem dizer que “pagam” por esse serviço e que, portanto, é “obrigação” dos outros – o Estado, a prefeitura, a coletividade – resolver esse problema. Ignoram, atestando sua ignorância também em outras áreas, que o serviço de coleta e movimentação de lixo tem um custo baseado justamente no seu peso. E, quanto mais lixo se produz e descarta indevidamente, mais caro todo mundo vai pagar. Sem mencionar os prejuízos ambientais e sociais daí decorrentes, como se fosse necessário.

As mesmas pessoas que reclamam que “os outros” não estão resolvendo o problema do seu lixo aplaudiram a legislação que estabeleceu a logística reversa em vários setores (produtores de determinados artigos, sensíveis ou perigosos, como lâmpadas e baterias, são obrigados a recebe-los quando inservíveis e dar a destinação correta a eles). Não veem que estão se furtando a fazer um mínimo esforço para ajudar a resolver um problema que está sendo alimentado e aumentado por todos e que a cada dia custa mais. Para todo mundo.