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Violência é resultado, não causa

Muita gente revoltada, em Ponta Grossa, com o que chamam de ‘onda de violência’. Num só dia, três farmácias foram assaltadas, mais um tanto de outros roubos, ameaças, agressões. Em outra ação, oito bandidos ocuparam um dos botecos mais concorridos da cidade e fizeram um arrastão, roubando pertences dos clientes, um carro e o dinheiro do caixa. Discussão das grandes nas redes sociais, com gente só agora percebendo que a criminalidade está, de fato, bem à sua frente. Mas e daí? Aí aparecem as reclamações. Alguns jogam a responsabilidade para os nomes de sempre (prefeito, presidente, “situação”, “corrupção”). Outros preferem achar que isso é reflexo ‘da crise’. Tolice. Esquerdinhas, facistóides e imbecis de várias denominações oferecem soluções bocós. A maioria insiste que a violência, resultado sensível da criminalidade, tem como raiz a pobreza, a “miséria” e a “necessidade”. 

Francamente, esse raciocínio é também criminoso. Ninguém entra no crime por ser pobre. Pobreza não é passaporte para a violência. Se há mais violência entre as camadas mais pobres é porque o Estado é ineficiente – e mais ineficiente entre os mais pobres. Mas a pobreza, a “miséria” e o desemprego não são, nunca foram e nunca serão justificativa e explicação para assaltos, homicídios e arrastões. Um bandido não está nessa situação porque é pobre. Um ladrão se transformou nisso porque roubou, não porque “não teve” algo, nem mesmo “oportunidade”. Na realidade, ele viu no crime uma oportunidade de ter algo que não lhe pertencia...

A ladainha da igualdade obrigatória é tão delinquente quanto o malaco que ameaça o frentista com uma faca para roubar R$ 40. Não há igualdade ‘natural’. Em lugar nenhum. Em momento nenhum. As pessoas são diferentes, as classes sociais existem e não vão desaparecer porque alguns desocupados acreditam nisso e a falta de emprego é sim algo revoltante, mas não é justificativa, explicação nem causa da violência. Desempregados não são desocupados. Desempregados estão em busca de emprego. Desocupados não querem emprego; querem manter-se sem trabalhar. Por isso roubam, assaltam, furtam. Inventam esquemas. Organizam bandos. Armam quadrilhas. Fazem planos. Matam, se preciso for. Morrem, às vezes.

A única notícia correlata à indignação pública diante do aumento da criminalidade em Ponta Grossa – na verdade apenas o aumento dos casos visíveis de crime, uma vez que as estatísticas mostram que estas semanas são, ao contrário, bem menos violentas do que as precedentes – é, nesta quinta-feira, o informe de que serão SOLTOS graças a um mutirão, diversos internos do presídio da cidade. Não consigo imaginar de que forma a soltura de gente que está na cadeia vai contribuir para reduzir a criminalidade. Também não consigo ver de que maneira o fato de o bandido estar usando uma tornozeleira eletrônica vai impedi-lo de usar uma faca, um revólver ou um tacape, para assaltar, agredir, atacar.

O entendimento é que as cadeias estão cheias demais e que por isso é preciso esvaziá-las. Aí se promove a progressão de pena, com bandido passando do regime fechado para o semiaberto ou ganhando as ruas com um enfeite caro nas canelas. As prisões não estão cheias porque são pequenas. As prisões não estão cheias apenas porque a Justiça é lenta e às vezes inepta. As prisões estão cheias porque há muitos bandidos e poucas prisões.

A tática de evitar o encarceramento de bandidos com o emprego de audiências de custódia pode ser muito prática e econômica para o Estado. Mas eu, como cidadão, não consigo acreditar que sejam positivas: eu quero bandido preso em flagrante, seja lá porque crime for, mantido na cadeia. Não tem cadeia para todos? Construir cadeias e dispor de vagas para colocar lá dentro todo mundo que comete crime pode sim ser um elemento de grande poder de dissuasão. Afinal de contas, o sujeito vai pensar duas vezes antes de cometer um crime diante de qual possível destino: pagar uma fiança qualquer e eventualmente usar uma tornozeleira eletrônica ou ficar meses e meses trancafiado longe da família e de tudo que é importante para ele?

Criar novas leis e estratégias para reintegrar o interno na sociedade só pode ajudar se ele tiver, de fato, pago por seu descompasso, pelo descumprimento do papel primeiro de ser civilizado. Se o sujeito não sofreu nada mesmo tendo sido identificado e julgado como bandido, depois de ter ameaçado a vida de seus semelhantes e covardemente se apropriado de algo que não lhe pertencia, onde é que cabe sua ‘ressocialização’? Todos merecem uma segunda chance. A maioria talvez uma terceira. Mas isso não significa que o primeiro crime deva ficar impune, ou quase.

Sem cadeia para quem precisa, não haverá sossego para quem merece.