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Grassadonia e Piazza reinventam o tema da Máfia em 'O Fantasma da Sicília'

Antonio Piazza e Fabio Grassadonia chegaram ao cinema pela via da literatura. Escritores, exercitaram-se como roteiristas - em dupla. Tornaram-se diretores, mantendo a dupla. O primeiro longa, que os trouxe ao Festival do Rio, há quatro anos, foi Salvo - Uma História de Amor e Máfia. Um assassino da organização secreta se apaixona pela irmã - cega - de sua vítima. Eram dois cegos, e a cegueira dele era moral. Piazza e Grassadonia estão de volta aos cinemas brasileiros. O Fantasma da Sicília foi o filme de abertura do recente Festival Oito e Meio de Cinema Italiano. Está agora em sessões normais. Os diretores voltam ao tema da Máfia e à ambientação siciliana. Seu filme é belíssimo.

O Fantasma da Sicília baseia-se na história real de Giuseppe di Matteo. Em 1995, o garoto foi sequestrado e mantido em cativeiro durante quase 700 dias, numa tentativa da Máfia para calar seu pai, que entrara num programa de delação premiada e estava entregando antigos companheiros no crime. O sequestro foi mantido secreto até o desenlace - 'Beppe', a poucos dias de completar 15 anos, foi estrangulado e seu corpo, dissolvido em ácido. Quando o caso veio a público, o clamor foi grande. "Ao silêncio social sobreveio uma grande indignação", disseram os diretores, numa entrevista por telefone. "O caso teve muita repercussão e cerca de 100 mafiosos foram levados a julgamento e condenados, numa operação que foi decisiva para a criminalização da Máfia. Com a morte de Beppe, caiu a omertà, a chamada lei do silêncio que protegia os mafiosos."

A Máfia sempre foi um tema relevante para o cinema italiano. Inspirou grandes filmes, de grandes diretores. Francesco Rosi, Elio Petri, Damiano Damiani, para citar alguns (os maiores?). Embora jovens, Grassadonia e Piazza já viraram habitués da Semana da Crítica, do Festival de Cannes. Venceram o prêmio da sessão com Salvo, em 2013. Voltaram este ano, com O Fantasma. Na entrevista por telefone, os diretores contaram como acreditam na força do cinema - tanto para formar plateias como motivar consciências. A questão era, sempre foi, como contar essa história. "Os fatos se passaram há 20 anos, são de domínio público. Não se trata mais de fazer obra de denúncia, como as dos mestres do passado. Precisávamos achar o nosso viés."

O essencial da história de Beppe está na tela, mas os diretores, também roteiristas, não se prendem ao factual. Para contar sua história, recorrem a um artifício. Beppe, no filme, tem uma namorada e o horror desses 700 dias e noites são recriados através do olhar de Luna. Ela é uma licença poética. Como se conta uma história verdadeira por meio de uma personagem fictícia? É o que faz a força e o mistério de O Fantasma da Sicília. Beppe e Luna são as novas faces de Romeu e Julieta. E o filme, terrível na reconstituição de um ato de barbárie, traveste-se de fantasia.

Na trama fantástica de O Fantasma da Sicília, Luna sonha e tem visões do cativeiro de seu Beppe. Busca-o com a ajuda da amiga e do namorado dela, que tem um primo. Esse garoto é essencial para construir a visão poética de Grassadonia e Piazza. Ele evoca o mito, e sem entrar em detalhes para evitar spoiler, é da ordem do mito que o filme se encerra. A fábula conduz àquela praia, com ecos pirandellianos. Como Luigi Pirandello, Grassadonia e Piazza são naturais da Sicília. Sabem que a sua ilha possui um dos maiores acervos de mitos e lendas da Itália. Os irmãos Taviani já beberam nessa fonte ao realizar Kaos, talvez o mais belo de seus filmes, em 1984. A dupla agora retorna àqueles templos e anfiteatros. Beppe é um cavaleiro, mas sua montaria não é o alado Pégasus para lhe permitir voar sobre a miséria humana e social que o condena à morte.

São muitas as perguntas - como se mantém o interesse por uma história cujo desenlace terrível já é conhecido? Grassadonia e Piazza admitiram, para o repórter, que tiveram uma bússola, e foi O Espírito da Colmeia, do espanhol Victor Erice. Uma menina esconde um soldado republicano durante a Guerra Civil. Sua inspiração, a dela, é o Frankenstein de James Whale. O fantástico é sempre uma aposta delicada, dizem os diretores. Depende de um tom que você nunca tem certeza de que vai atingir. Às vezes, e com dedicação, talento, é possível chegar lá. Grassadonia e Piazza estão conseguindo criar novas narrativas sobre a Máfia.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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