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Cavalhada de Poconé: tradição desde o século XVIII no Pantanal

Cavalhada de Poconé: tradição desde o século XVIII no Pantanal

Batalhas coreografadas entre cavaleiros mouros e cristãos marcam a celebração a São Benedito em Poconé, no Mato Grosso. A Cavalhada de Poconé faz parte dos festejos para o santo, entre os meses de maio e junho, na cidade que muitos consideram a capital do Pantanal. Além dos soldados, fazem parte do espetáculo a céu aberto, encenado em um campo, pajens, rainha, guardas, encapuzados, auxiliares de pista e caixeiros, e os locutores, que narram a festa. A encenação simula a disputa entre povos cristãos e muçulmanos para a consolidação do Cristianismo durante a Idade Média. No final, bandeiras brancas são estendidas em pedido de paz. Os mouros são rendidos e se convertem à religião cristã.

Os preparativos começam cerca de seis meses antes e envolve toda a comunidade que se divide em dois grupos: os Mouros e os Cristãos. Há mais de 200 anos a batalha histórica é encenada na cidade, sempre em um domingo (em geral no primeiro de junho). Em 2015, cerca de 15 mil pessoas tiveram em Poconé para a festa. As Cavalhadas de Poconé e Pirenópolis são as mais tradicionais do país.

As roupas dos cavaleiros e dos cavalos pantaneiros são bordadas à mão para os participantes surpreenderem o público durante a disputa, que dura cerca de seis horas. A batalha é composta por dois exércitos: o Cristão representado pela cor azul-turquesa e o Mouro representado pela cor vermelha.

A batalha acontece desde o século XVIII

Há registros de que as cavalhadas chegaram ao Mato Grosso em 1769. Nas primeiras décadas do século XX constam registros de várias cavalhadas no estado. Entre 1956 e 1990, a manifestação ficou esquecida na cidade pantaneira, sendo resgatada em 1991.

São 12 cavaleiros de cada lado, entre eles um mantenedor, um embaixador e 10 soldados, de roupas de cetim e chapéus. A disputa começa com o rapto da rainha moura pelos cristãos. Se na encenação quem ganha sempre são os cristãos, nas provas ou “corridas”, que valem pontos, cada cavaleiro pode ajudar a sua equipe a vencer. Os torcedores registram todos os lances com emoção.

Todo ano são eleitos um casal de festeiros, uma rainha e um capitão do mastro para organizar toda a Festa de São Benedito em Poconé. No domingo de Cavalhada, no último fim de semana de maio ou início de junho, eles ficam em tendas ou camarotes de suas famílias.

“Sou único que tem um camarote, mas não aproveita”, brinca o locutor da Cavalhada Lauro Eubank, que fica no palanque narrando todos os passos no campo. Advogado, ele é casado com uma paulista que aprendeu a amar a festa. “Quem não é pantaneiro, poconeano, pode ainda se apaixonar e, pelo coração, assimilar a cultura e passar a viver a Cavalhada”, acredita. Toda a família de Lauro é envolvida: o irmão ajuda com os fogos e montagem do cenário; a filha sai da escola e acompanha os treinos com as amigas; até os sogros de São Paulo fazem questão de participar da festa.

O rapto da rainha e a guerra

O batuque feito por um senhor, o caixeiro, entra em sincronia com o ritmo dos galopes, passos e trotes. De acordo com a velocidade da corrida ou coreografia, as marchas aceleram ou ficam mais lentas.

Após apresentação de bandeiras e dos encapuzados aparecerem no campo, entram em cena os cavaleiros. Um representante cristão e depois o outro mouro fazem o reconhecimento do local. As armas são apresentadas, a princesa é escoltada até o castelo. Enfileirados, os cavaleiros se apresentam para a luta. Sozinha no castelo, a rainha moura é sequestrada e ateia-se fogo ao castelo. Toda a luta encena a batalha de Carlos Magno e os 12 pares da França e o rapto da nobre seria referência à história de Helena de Troia.

Para que toda a coreografia seja bem executada, os cavaleiros, pajens e rainha treinam por uma semana. A cena mais aguardada é a das argolinhas, em que se tem que pegar com a lança uma argola de 5 cm de diâmetro presa numa haste, em velocidade. Outros jogos coreografados são a carreira do limão e a do Judas (em que o cavaleiro acerta com a espada um boneco do apóstolo Judas Iscariotes).

O locutor e advogado Lauro Eubank, participa da Cavalhada desde 1993. Participa também do treinamento dos cavaleiros, de 10 a 15 dias antes da Cavalhada. Além disso, faz a locução para orientar os participantes. “Quando o cavaleiro passa em alta velocidade para pegar a argolinha é como se fosse uma disputa de vida ou de morte. É a coroação do esforço. Guarda a argola como se fosse joia. Recebe o reconhecimento, o povo grita o nome. É emocionante”, conta Lauro.

Como ser um cavaleiro, rainha e festeiro

Cavaleiro há seis anos, Daniel Figueiredo começou como pajem. Para tornar-se cavaleiro, teve que esperar alguns anos até surgir "uma vaga". Geralmente, os postos são passados em família. No caso de Daniel, o pai foi cavaleiro e a mãe foi festeira em 1991. A habilidade com o animal também é testada. Por isso, é importante ter começado como pajem.

É preciso, além de ter parentes integrantes da irmandade ou que tenham ocupado funções na Cavalhada, ter um cavalo ou providenciar um animal que seja manso. “Não pode ser arisco ou se assustar com cores ou alegorias usadas nas provas”, destaca o cavaleiro.

No domingo de Cavalhada, Daniel chega ao campo às 5h da manhã, treina por uma hora, arruma o cavalo na baia e veste suas roupas. A jornada vai de 8h até as 16h. A família arruma o camarote e prepara o almoço, que será desfrutado pelos soldados no intervalo de duas horas entre os dois turnos de cavalgadas.

Os festeiros, rainha da festa e rei do mastro sinalizam que querem participar no próximo ano. Se não houver outra chapa, podem ser eleitos. Caso haja outros concorrentes, um sorteio é feito. A rainha é escolhida pelo festeiro e dever ter entre 15 e 21 anos. Todos têm parentes que tenham participado. Os festeiros só podem voltar a participar depois de cinco anos.

“O festeiro ajuda com o trabalho. A programação não pode deixar de contemplar nenhum dos atos religiosos”, frisa a festeira de 2014 que foi, por seis anos, presidente da irmandade que organiza a festa, Glória Gahyva, de 55 anos.

Cristão x Mouros

A professora de Educação Física Glória Gahyva, de 55 anos, integrante da irmandade de São Benedito, participa como voluntária na organização e como espectadora desde que o pai entrou para a irmandade. A família toda é envolvida. “Tenho quatro primos cavaleiros – dois cristãos e dois mouros. Mas a tradição da família Gahyva é de ser cristã. Amargamos uns quatro anos sem vitória, mas conseguimos reverter isso”, diz Glória.

Na torcida e na escalação dos mouros, está o administrador e cavaleiro Daniel Figueiredo, de 31 anos, há seis anos no cargo. Ele segue do lado que seu pai defendia. Dos 7 aos 11 anos, Daniel foi pajem – encarregado de segurar a lança para o soldado –, ajudando seu pai, que era soldado mouro. Já o locutor da Cavalhada, o advogado Lauro Eubank, diz que sua torcida é neutra.

Segundo o locutor – que se afasta do serviço por 15 dias para exercer essa profissão no período festivo –, os lugares de onde vem e as famílias sinalizam que lado o participante defende. Com pais nascidos em famílias atuantes em Cavalhadas, Lauro é filho de pai mouro de Rio Alegre, no Baixo Pantanal, e mãe cristã do Campo dos Bois, talvez por isso ele diz ser “neutro”.

“Talvez por isso eu fique no meio do campo de batalha, no palanque”, brinca Lauro. “Às vezes, reclamam porque acham que elogiei demais um exército. Para não incentivar muita rivalidade, não fazemos questão de divulgar o resultado das provas”, afirma o locutor.

Homenagens, emoção e pedidos de casamento

O pai do advogado Lauro Eubank fazia o cerimonal de todas as atividades nas festas de Poconé. Hoje, Lauro narra e apresenta, com o texto em maior parte improvisado. Durante a Cavalhada, no microfone, Lauro conta a história da família de cada cavaleiro.

“Quem está lá revive histórias. Tem gente que lembra, por exemplo, da dificuldade que era vir de outros locais há 40 ou 50 anos, quando usavam carro de boi”, diz o locutor. “Muitas vezes não consigo concluir o que quero dizer. A gente se emociona. Quem me colocou na Cavalhada foi meu pai, que fazia o cerimonial da festa. Quando me lembro dele, me emociono”, acrescenta.

Lauro se prepara antes da festa estudando as trajetórias de festeiros, rainhas, reis e cavaleiros. Desde 1991, há todos os registros, que são atualizados anualmente. O baile para a diplomação de cavaleiros também é apresentado por ele, que conta a história de cada família de participante. “Há currículos muito extensos”, diz. “Poconé é uma cidade pequena, de 30 mil habitantes. Dá para chamar o cavaleiro pelo nome. A gente conhece o sofrimento, as dificuldades das famílias, o esforço para estar ali. Quando ele sai com a lança como um guerreiro com a argola no braço, emociona. Todos vibram, choram e gritam o nome”, conta ainda Lauro.

Desde os anos 50, existe na festa a tradição de pedidos de casamento no palanque. “Começou quando um cavaleiro se casou com uma rainha. São vários pedidos e relatos de namoros. Muitas famílias surgiram na Cavalhada”, conclui.

Novena e eventos sociais

São cinco dias de festa. Antes da Cavalhada, é realizada uma novena para o santo e um baile chamado “Retreta”. Além disso, há jantares, missa, leilão, o tradicional “chá com bolo” e o baile dos cavaleiros, além da festa da praça e procissão. Na Praça da Matriz, há Iluminação do Arco do Glorioso São Benedito, queima de fogos, dança de grupos de mascarados e a Procissão dos Anjos.

A irmandade também oferece almoço popular em quatro dias, fruto de ações de arrecadação feitas durante o ano. Quando as doações são suficientes, o que sobra é doado para obras sociais, como a creche da irmandade, que tem 150 alunos.

A história

De acordo com a turismóloga Silvana Abdalla, em sua pesquisa “Turismo e cultura: uma leitura do espaço urbano poconeano em suas singularidades”, de 2006, a Cavalhada é uma tradição de torneios da Idade Média que foi incorporada ao folclore. Em Portugal, a Rainha Isabel, instituiu a manifestação como uma festividade, no século XIII. Em algumas ocasiões é comemorada como parte dos festejos do Divino Espírito Santo, 50 dias após a Páscoa.

“No Brasil esta representação dramática foi introduzida, sob a autorização da Coroa, pelos jesuítas, com o objetivo de catequizar os gentios e escravos africanos, mostrando nisto o poder da fé cristã”, afirma Silvana em seu trabalho.

O episódio da Batalha de Carlos Magno e os Doze Pares da França representa a luta de um cristão contra os sarracenos, de religião islâmica, para que não invadissem parte da Europa. “Um verdadeiro épico, cantado em trova, como forma de incentivar a população cristã contra as investidas dos exércitos islâmicos que, apresar da derrota na batalha de Carlos Magno, não abandonaram as investidas”, explica ainda Silvana.

Por um período, por 1917 a 1919, a Cavalhada acontecia em Poconé durante a Festa do Divino. A tradição ficou adormecida por mais de 30 anos. Em 1991, foi retomada pelos festeiros, como parte da festa de São Benedito. As duas celebrações, que acontecem em maio e junho, marcam o período em que fazendeiros iam à cidade para as festas.

Período de seca

Nilza Ferreira Figueiredo foi festeira em 1991, ano em que a Cavalhada foi retomada por decisão dos organizadores da Festa de São Benedito. Nesse ano, as funções de liderança no preparo foram sorteadas, pois não havia a candidatura de uma chapa única. Nilza foi uma das eleitas por acaso e lembra que o festeiro reuniu-se com ela e com o capitão do mastro, quando sugeriu que revivessem a Cavalhada. “Foi feito, então, um estudo, consultamos cavaleiros antigos que nos passaram informações de como era realizada e de detalhes como a roupa usada”, diz Nilza.

“No primeiro ano da retomada não existia regulamento. Ficou estabelecido então que as Cavalhadas seriam de responsabilidade do capitão do mastro da festa de São Benedito”, ressalta Nilza, que foi secretária de Cultura cinco anos depois, tem três filhos que foram pajens ainda pequenos e, atualmente, até o caçula corre como cavaleiro. “O público depende do trabalho de divulgação do festeiro. Hoje, são milhares de pessoas na arquibancada para ver a Cavalhada”, conclui.

“As festas aconteciam, até o século XIX, no período de seca, quando as águas do Pantanal baixavam e os fazendeiros iam até a cidade. Eles iam em maio para a festa do Divino e ficavam para a de São Benedito. Eram realizadas historicamente no primeiro fim de semana depois de Corpus Christi”, afirma a professora Glória Gahyva, da irmandade fundada antes de 1868.