Museu Paranaense aborda a sabedoria popular e ancestral das benzedeiras

Durante o mês de março, o Museu Paranaense (MUPA) irá promover a ação “Benzedeiras do Paraná: Mulheres de Fé” e o encontro “Mulheres e Identidades” com uma série de atividades abertas ao público nas redes sociais. Ainda fechado devido à pandemia do coronavírus, o Museu preparou para o mês da mulher, uma intensa programação virtual que aborda a identidade feminina em conhecimentos e fazeres ancestrais.

Benzedeiras do Paraná: Mulheres de fé

Em parceria com o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR), o MUPA promoverá uma série de atividades online relacionadas às benzedeiras paranaenses, mostrando o universo de fé e vida das benzedeiras da região Centro-Sul do Paraná, além dos métodos de cura e conhecimentos de plantas medicinais que elas possuem.

No dia 18 de março, às 19 horas, será feita uma mesa-redonda virtual com a antropóloga Taísa Lewitzki e com as benzedeiras Ana Maria dos Santos (Ana Benzedeira), Agda Cavalheiro (Dona Guina) e Rosalina Gomes dos Santos (Dona Rosinha). A mediação será da arqueóloga do Museu Paranaense, Claudia Parellada. No evento, as convidadas vão partilhar as trajetórias, as práticas tradicionais de cura e a importância da valorização dessas práticas como patrimônio imaterial.

Ana Maria Benzedeira é benzedeira de Rebouças, no Paraná. Ela é coordenadora do Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA), integra a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais e o Conselho Estadual de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do Paraná. Ana aprendeu o ofício de benzer com seu pai, na comunidade de Rio Bonito. É familiarizada com as profecias do Monge João Maria e defensora de seus Olhos d’Água. Participou do Mapeamento Social das Benzedeiras de Rebouças e lutou para aprovação da Lei Municipal 1.401/2010, a primeira lei no Brasil que reconhece a identidade étnica e coletiva das benzedeiras e regulamenta o livre acesso às plantas medicinais.

Também de Rebouças, Dona Gina é benzedeira, remedieira e costureira de rendiduras. É coordenadora do Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA), integra a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais e o Conselho Estadual de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do Paraná. Conhecedora das plantas medicinais e detentora de inúmeras práticas e conhecimentos tradicionais de cura, ministra oficinas e cursos para benzedeiras em formação. É uma das fundadoras do MASA, com grande atuação nos Mapeamentos Sociais de Benzedeiras e aprovação de leis municipais e estadual de benzedeiras.

Dona Rosinha é benzedeira, arrumadeira e costureira de rendidura do município paranaense de Irati. Também é coordenadora do Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA), integra a Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do Brasil. Festeira do Divino, cantadeira de festas tradicionais e devota do Monge João Maria, integra a equipe de pesquisa do Mapeamento Sociocultural das Benzedeiras e Ofícios Tradicionais de Irati que resultou na aprovação da Lei Municipal 4543/2018, que reconhece o ofício de benzedeira como agente de saúde popular.

Antropóloga e pesquisadora, Taisa Lewitzki é autora da dissertação “A vida das benzedeiras: caminhos e movimentos”, que conquistou Menção Honrosa do Prêmio de Obras e Teses da ANPOCS 2020 e o Prêmio Curta Ciência UFPR 2020. Taisa observa que benzimento é a tradução do conhecimento geracional, o qual as benzedeiras são guardiãs. “Experiências que elas enriquecem com a troca com outras benzedeiras, com a diversidade e são aplicadas em suas comunidades em prol da saúde popular. Essa forma de ver o mundo traduz um modo de vida e constitui a diversidade cultural do interior do Paraná.”

Documentário

Como parte das atividades programadas, será exibido o filme “Instalações-Rituais: documentário etnográfico sobre altares de benzedeiras por onde andou São João Maria”, da antropóloga Geslline Braga. No dia 28 de março, o link será disponibilizado pelo Instagram e Facebook do MUPA.

A proposta da obra é realizar uma leitura dos altares de benzedeiras como instalações de arte contemporânea, notando as subjetividades, atribuições simbólicas, construção de significados, função ritualística e a presença da fotografia. Nos altares, a arte e a estética invadem o cotidiano, mostrando uma composição de aspectos dinâmicos e fluídos, que fazem parte da cultura popular brasileira. Um dos principais elementos de culto destes altares são as fotografias de João Maria, santo não-canônico da Região Sul do Brasil. Para a realização deste trabalho, foram visitadas casas de benzedeiras e benzedores de cidades paranaenses e catarinenses, por onde o santo passou entre o final do século de XIX e décadas iniciais do XX.

No dia 31 de março, às 19 horas, uma mesa-redonda virtual irá discutir questões relacionadas ao documentário “Instalações-Rituais”. O encontro terá a participação da antropóloga e realizadora do filme, Geslline Giovana Braga, e da professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Liliana Mendonça Porto. A mediação será da arqueóloga do MUPA, Claudia Parellada.

Geslline é antropóloga, realizadora documentários etnográficos, com premiações em nível nacional. Especialista em Fotografia, possui Doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Estuda as áreas de patrimônio imaterial, antropologia visual, antropologia das populações afro-brasileiras e das formas expressivas.

Liliana Mendonça Porto é professora da Universidade Federal do Paraná, com Doutorado pela Universidade de Brasília, e Pós Doutorado no Museu Nacional, atuando especialmente com o estudo de povos e comunidades tradicionais, e com as temáticas catolicismo popular, comunidades faxinalenses e quilombolas, e patrimônio imaterial.

Áudios

Ao longo do mês, nas redes sociais do MUPA, serão publicados uma série de áudios, produzidos com as benzedeiras paranaenses e organizados pela antropóloga Taisa Lewitzki.

Mulheres e Identidades

No dia 11 de março, às 19 horas, a pesquisadora e líder indígena Genilda Kaingang e a artista chinesa, radicada em Foz do Iguaçu, Maria Cheung, reconhecidas internacionalmente por lutarem pela valorização da atuação da mulher na sociedade, abordarão temas, como preconceito, superação e violência étnica. O encontro será transmitido pelas redes sociais do MUPA.

Nascida em 1957, Maria Cheung desenvolve arte conceitual, resultado do resgate das suas raízes. Suas obras falam da cultura que ela negou quando criança, ao chegar ao Brasil. Hoje, usa a arte para expressar a sua identidade, recria suas memórias afetivas e ancestrais e procura provocar reflexões com temas que a tocam.

Genilda Kaigang nasceu na Terra Indígena Barão de Antonina, em São Jerônimo da Serra, norte do Paraná. Na década de 1980, virou servidora da fundação nacional do índio (FUNAI). Em Curitiba, fundou o Conselho de Mulheres Indígenas do Brasil (CONAMI). Genilda desenvolve diversas atividades de divulgação das culturas indígenas em escolas, universidades e museus.

Serviço

  • 11 de março, às 19 horas: Mesa-redonda “Mulheres e Identidade”.
  • 18 de março, às 19 horas: Mesa-redonda “Benzedeiras do Paraná: Mulheres de Fé”.
  • 28 a 31 de março: disponibilização do documentário “Instalações-Rituais: documentário etnográfico sobre altares de benzedeiras por onde andou São João Maria”.
  • 31 de março, às 19 horas: Mesa-redonda sobre o documentário “Instalações-Rituais”.

Todas as atividades acontecem nas redes sociais do MUPA.