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Psicólogos que ajudaram no caso da boate Kiss estão em Chapecó

(Foto: Ralph Quevedo/ Sentinela 24 horas) - Psicólogos que ajudaram no caso da boate Kiss estão em Chapecó
(Foto: Ralph Quevedo/ Sentinela 24 horas)

Na ressaca do acidente que paralisou Chapecó (SC), o município agora se viu em um limbo. Enquanto espera para velar seus mortos, começa a pensar: como vai se recuperar desse trauma?

Semelhante a uma cidade do interior de São Paulo, Chapecó, com 220 mil habitantes, se preparava para celebrar seu centenário no ano que vem quando uma tragédia modificou as prioridades do município: 71 pessoas, entre jogadores da Chapecoense, membros da delegação e jornalistas, foram mortos na queda do avião que os levava ao primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana, em Medellín, na Colômbia.

Convidada pela Chapecoense, uma equipe de saúde de cinco pessoas de Santa Maria (RS) chegou à cidade para ajudar no tratamento psicológico dos familiares a partir de uma experiência de perda semelhante. Em 2013, 242 pessoas morreram na cidade em um incêndio da boate Kiss. Desde aquele dia, essa equipe segue tratando os sobreviventes, amigos e familiares das vítimas da tragédia gaúcha. Para a enfermeira Patrícia Bueno, as tragédias têm em comum a idade da população que perdeu a vida em um desastre (jovens) e a grande quantidade de vítimas.

Os dois casos, diz o psiquiatra Gilson Mafacioli, se deram com um elemento que mantinha uma identificação com o local -jovens estudantes na cidade universitária de Santa Maria e jogadores em uma cidade extremamente ligada a um time de futebol.

Em 2013, porém, os familiares das vítimas fizeram a identificação dos corpos rapidamente, visualizando-os no ginásio em que ficaram dispostos. Agora, "vivem uma angústia porque é algo longe, não se viu nada concreto", diz Patrícia. "Visualizar é algo muito importante para processar a morte." O velório coletivo acontecerá no sábado (3) em Chapecó.

Para Mafacioli, uma tragédia como esta "passa a fazer parte da história da cidade, não tem como varrer para debaixo do tapete" e, segundo ele, é importante criar espaços de reflexão e memória sobre o que aconteceu. 

"Mais do que destruir, uma tragédia como essas pode unir a população. Aqui [em Chapecó] é união total", avalia Patrícia.

Outra equipe que chegou à cidade foi a da Abrapavaa (Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos). "Vejo semelhanças com o acidente da Gol [de 2006]", diz a presidente da entidade, Sandra Assali. "É desesperador esperar os corpos. Vejo os familiares com o olhar perdido, extremamente angustiados."

No caso da Gol, o Boeing caiu na Amazônia, e a Aeronáutica levou alguns dias para recolher os corpos e levá-los até seus familiares.

Em Chapecó, no estádio municipal, familiares das vítimas ainda passam pelo vestiário, mas em menor quantidade. Nesta quinta (10), as mulheres dos jogadores Danilo e Bruno Rangel e do preparador de goleiros Anderson Martins foram buscar seus pertences. No espaço, há velas acesas e flores dispostas nos armários dos jogadores.

A volta

Já a cidade volta a funcionar: algumas escolas retomaram as aulas e serviços e restaurantes estão abertos, ainda que com mensagens de luto. "Empresários e comerciantes se misturam com a diretoria do clube. Passado esse momento de tristeza, vamos nos dispor a ajudar", diz Josías Mascarello, da Associação Comercial Industrial Chapecó, considerada polo da agroindústria na região.

"Como é uma cidade relativamente pequena, afastada da capital e próxima à fronteira, o futebol supria a ausência de opções de lazer e definia a auto-estima e identidade da região", diz a historiadora e arqueóloga Mirian Carbonera, do Centro de Memória da UniChapecó. "As crianças sonham em crescer e serem jogadores da Chapecoense."

É o caso do goleiro Luiz Dal Piva, 20, jogador da sub-20 do time. "Tinha o sonho de ser campeão com eles", diz. Sem esperança, ele se pergunta: "Mas como vamos nos recuperar? Não sobrou ninguém."

O clube catarinense tem uma certeza: se precisar entrar em campo ainda neste ano, terá que recorrer aos jovens das categorias de base. A ideia, porém, parece não ser das melhores. Pelo menos é o que pensa Cezar Antônio Dal Piva, o Mano, diretor de futebol amador da equipe e pai do goleiro da sub-20. "Acho que não seria das melhores opções. Os jogadores ainda são muito jovens e isso poderia ser uma carga muito grande para eles."

Em uma reunião com a direção do clube, esse jovens demonstraram vontade de ajudar dentro de campo. "Temos que assumir a responsabilidade", afirma Anderson Campos, 19, o Canhoto. Muito abalado, o zagueiro Ramiro Simon, 18, suspira e diz só apostar na união dos jogadores que restaram.

Dos 33 atletas que havia no elenco, 19 morreram no acidente, três sobreviveram e 11 não viajaram, dos quais dois estão lesionados (Hyoran e Martinuccio) e um anunciou aposentadoria (Nivaldo).