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Vai-Vai monta time profissional e sonha com Pacaembu lotado

Se o Vai-Vai está firme no pedaço, apesar dos arranha-céus que escondem a luz da lua no Bixiga, o Cai-Cai, time de futebol que deu origem à maior campeã do carnaval paulistano, não sustentou a tradição na bola e logo acabou. Quase oitenta e sete anos depois, a história está mudando. O Esporte Clube Vai-Vai está na semifinal da Taça Paulista, seu primeiro torneio profissional, e já sonha longe: quer adotar o Pacaembu como casa e chegar à primeira divisão do futebol paulista.

Como diz a música de Geraldo Filme, o asfalto cobriu o chão do Bixiga. Os campos de futebol só sobreviviam nas lembranças de baluartes como Diamantino Barbosa, o 'Seo Nenê', falecido em março, aos 90 anos, então o mais velho componente do G.R.S.E.S. Vai-Vai. Na sopa de letrinhas que dá nome à escola de samba entram "cultural", "social", mas não "esportiva".

A lacuna foi preenchida em janeiro pelo filho de Nenê. Marco Aurélio Barbosa, lateral-direito campeão brasileiro com o Cruzeiro em 2004, foi quem levou a ideia de criar um time profissional à direção da escola de samba. A proposta havia lhe sido feita por Gislaine Nunes, a polêmica advogada que ganhou fama por livrar jogadores das amarras dos clubes e responsável pela ação que pode tirar o Canindé da Portuguesa.

É dela a Liga de Futebol Paulista, que já estreou em 2016 com 17 clubes de um limbo entre o amadorismo e a quarta divisão da Federação Paulista de Futebol. Na Taça Paulista estavam Corinthians de Presidente Prudente e União Suzano, entre outros clubes licenciados da federação.

Até agora, nenhum foi páreo para o Vai-Vai, que tem 21 jogos, 18 vitórias, dois empates e uma partida semifinal que não terminou, sábado passado, contra o Raça, em Hortolândia. Os árbitros não voltaram do intervalo reclamando falta de segurança. Só dava Vai-Vai, apesar do placar de 1 a 0 para os donos da casa. "Nosso nível não é muito acima. É para jogar a B1 (quarta) ou A3 (terceira divisão)", avalia o goleiro Claudemir, morador da Bela Vista e frequentador assíduo dos ensaios do Vai-Vai, de cuja quadra é vizinho.

Aos 26 anos, ele é um dos jogadores mais velhos de um elenco quase todo sub-23. Como todos os demais 26 atletas do time, ganha um salário mínimo mensal, pago em dia. Apesar de uma infinidade de jogadores terem sido observados por uma comissão técnica que tem até psicóloga, quase todos no time já moravam em São Paulo (há um carioca, apenas), o que não gera custo de hospedagem. A alimentação é fornecida pela chefe Janaina Rueda, do Bar da Dona Onça, torcedora do Vai-Vai. Patrocinadores pagam metade dos salários; a escola, a outra parte.

Os CNPJ's são diferentes, mas escola de samba e clube de futebol são quase um enredo só. Que o diga a tatuagem com o símbolo da escola que Gleison Pego, o Mineiro, um dos fundadores do Esporte Clube leva no lado direito do pescoço. Quem já frequentou os ensaios na Rua São Vicente ou já seguiu o Bloco Esfarrapados pelo Bixiga no carnaval o reconhece facilmente como o mestre de cerimônias.

Ele faz o mesmo papel no time de futebol, enchendo a bola dos jogadores do time. Um dos preferidos é o zagueiro Márcio, que se profissionalizou pelo Corinthians e jogou com Hyoran, reforço do Palmeiras, no Flamengo de Guarulhos.

A estrela do time, porém, é Marcelinho, um dos poucos que chega de carro ao treino no campo sintético da Portuguesa da Vila Mariana, na zona Sul. Aos 22 anos, ele está no Vai-Vai de passagem. Pelo Figueirense, chegou a jogar contra Corinthians e Atlético-MG no Brasileirão do ano passado. Formado pela Portuguesa, passou por CRB e Guarani em 2016 e, por regra da CBF, não pôde ficar no Juventus, que seria seu terceiro time no ano. No Vai-Vai, encontrou um lar temporário e um ganha-pão.

Marcelinho é um dos muitos que não devem ficar para o ano que vem. O técnico Marcos Vanucci, o Nenê, ex-lateral profissional com passagem por diversos clubes europeus, já está acertado com o Cascavel, da segunda divisão do Paraná. Coordenador da bateria "Pegada de Macaco", ele pretende voltar para disputar a quarta divisão no segundo semestre de 2017.

O maior empecilho para a realização do sonho é o preço da taxa de filiação da FPF, cerca de R$ 800 mil, quase quatro vezes o que o Vai-Vai gastou em seu primeiro ano de existência. A solução pode ser uma parceria com um clube que já pagou essa taxa, mas encontra-se licenciado, sem time. É daí que pode surgiu o Força Vai-Vai, uma vez que estão avançadas as negociações com o time do sindicato Força Sindical.

A FPF também exige um estádio para 5 mil pessoas, o que o Vai-Vai não tem. Entre as opções estão o Nicolau Alayon, do Nacional, onde o time jogou a maior parte dos jogos de 2016, o Ícaro de Castro Mello, no Ibirapuera, e até o estádio universitário da USP. Mais adiante, o sonho é ter o Pacaembu como casa.

Torcida não vai faltar. Em estádios menores, os jogos na Liga Paulista já reúnem até mil torcedores, sendo parte deles da 'Criolés', a organizada criada especialmente para o time de futebol. Um cenário muito diferente dos clube-empresas que têm ganhado espaço no futebol paulista. "Essa camisa já entorta varal", avisa Mineiro.