Alunos de Curitiba participam da maior feira de ciências do Brasil

Um origami gigante, feito com embalagens longa vida que seriam descartadas no lixo, se transforma em um abrigo impermeável, voltado para as pessoas em situação de rua. Desenvolvido por estudantes do Colégio Estadual de Educação Profissional de Curitiba, o projeto que olha para dois grandes problemas: a falta de moradia e os resíduos sólidos, será apresentado neste mês na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), a maior do Brasil.

A iniciativa surgiu em 2018, nas aulas do Curso Técnico em Edificações do CEEP Curitiba, integrado ao Ensino Médio. O desenvolvimento foi realizado pelos alunos Allan Ernesti, Leonardo das Neves, Thiago Bronoski de Oliveira e Udson Ribeiro.

O orientador da pesquisa, Gesse Ferreira de Lima, foi indicado ao Prêmio Professor Destaque da Febrace, que reconhece os profissionais que incentivam, entre os estudantes, os projetos de ciência e engenharia. Apenas 10 educadores de todo o Brasil concorrem ao prêmio.

“Mais do que reconhecimento, o que me orgulha como professor é toda a jornada que esses estudantes percorreram para chegar nesse produto, que é excepcional. Nossa intenção é sempre aprender durante o processo, e não apenas a técnica, mas também as questões humanas”, afirma Gesse. “Os adolescentes têm uma visão diferenciada e desenvolveram um projeto que vai influenciar positivamente na vida de outras pessoas, tem toda uma questão social e um senso de solidariedade envolvidos”, destaca. 

Como é feito

Já limpas e recortadas em tamanho padrão, as caixinhas de leite são “soldadas” uma a outra, por meio de um pedaço de tecido e um ferro de passar roupa. O processo é feito até formar uma grande manta de, aproximadamente, três metros quadrados. A estrutura, construída com cerca de 200 caixinhas, é dobrada com técnicas de origami, o que permite que o abrigo seja carregado facilmente pela pessoa que o utiliza.

“A técnica ajudou muito no nosso projeto, pois permite que um abrigo para duas pessoas possa ser carregado em uma bolsa. Desde o início, a ideia era criar um produto simples, que pudesse ser feito com materiais que temos em casa”, explica Thiago Brodoski, de 18 anos. “É gratificante ver a proporção que o projeto está tomando, uma ideia tão simples que está indo para o mundo e ganhando reconhecimento”, afirma.

Os materiais usados nesse tipo embalagem, que na prática dificultam sua reciclagem, são o que garantem o diferencial do produto desenvolvido pelos estudantes. A mistura de polietileno (plástico), papelão e alumínio é impermeável e térmica aguenta as intempéries da rua e, em dias frios, também torna o interior do abrigo um pouco mais quente.

Os jovens levaram em torno de um ano e meio para chegar ao protótipo do abrigo, e agora estão criando uma manta para ser usada em conjunto, forrando o chão. As caixinhas de leite são arrecadadas e entregues já limpas e recortadas pela ONG Brasil Sem Frestas, que também utiliza as embalagens para tapar as frestas das casas de madeiras de famílias vulneráveis.

Além dos eventos científicos, a proposta dos estudantes é que o projeto vá mais longe. Uma segunda etapa do projeto prevê oficinas com entidades que atendem pessoas em situação de rua, para que a iniciativa seja disseminada em todo o país. Há também a intenção de uma produção em larga escala dos abrigos, para que sejam distribuídos.

Reconhecimento

Esta não é a primeira vez que o projeto é reconhecido no meio científico. Em 2019, os estudantes foram vencedores, na Categoria Ciências Sociais Aplicadas, da Feira de Inovação das Ciências e Engenharias (FIciencias), realizada pelo Parque Tecnológico Itaipu (PTI). Com isso, garantiram o passaporte para a Expo Nacional MILSET Brasil, feira ligada ao Movimento Internacional para o Recreio Científico e Técnico.

No ano passado, venceram a Feira de Ciências Júnior PUCPR, que rendeu a indicação à Febrace. A maior feira de ciências do Brasil é promovida pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com apoio de várias instituições de fomento à pesquisa do Brasil. Neste ano, as atividades serão online e acontecem entre os dias 15 e 27 de março.

A feira faz parte de um movimento nacional de incentivo a jovens cientistas. Nove projetos serão selecionados para representar o Brasil na maior feira pré-universitária do mundo, a Regeneron ISEF (Internacional Science and Engineering Fair), nos Estados Unidos.

Colaboração AEN