A cada 60 minutos, três pessoas têm pernas ou pés amputados no Brasil

Pelo menos três pessoas por hora sofrem amputação de perna ou pé no Brasil. O número consta de um estudo inédito da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACB), feito a partir de informações coletadas na base de dados do Ministério da Saúde. O levantamento mostra que, entre 2012 a 2021, mais de 245 mil brasileiros passaram pelo procedimento nos membros inferiores e que a tendência é os índices continuarem a crescer.

Mais da metade dos casos envolve pessoas com diabetes, principalmente as que descobriram a doença tardiamente. Outras causas também apontadas como fatores de risco são tabagismo, hipertensão arterial, dislipidemia (doses elevadas de gordura no sangue), insuficiência renal, idade avançada e histórico familiar.

O analista contábil Paulo Roberto Marques Mesquita, de 42 anos, teve o dedão do pé esquerdo amputado no último dia 8, por conta de infecção que atingiu o osso. Ele é diabético desde os 25 anos, faz acompanhamento frequente, mas mesmo assim, não conseguiu evitar a cirurgia. “Eu estava muito bem em um dia e, do nada, no dia seguinte meu pé começou a queimar muito e não conseguia mais andar”, explica.

Em princípio, a lesão no dedão de Paulo foi diagnosticada como infecção de pele. Porém, logo depois, o pé começou a inchar de tal forma que ele procurou o médico que o assiste há anos e a cirurgia foi indicada com urgência. “Foi a minha salvação”, diz. Paulo acredita que a infecção possa ter relação com uma picada de aranha que levou em 2020 e precisou ficar um ano em tratamento. Ele conta que, quando descobriu o diabetes, a taxa já estava em 600. “Eu nem imaginava porque o único sintoma que tinha era apenas urinar muito”, lembra.

Abandono de tratamento

Os pesquisadores tiveram a atenção voltada para o fato de que, entre 2019 e 2021, o número de amputações cresceu significativamente e, na opinião deles, muitos dos casos têm a ver com o fato de os pacientes abandonarem o acompanhamento preventivo durante a pandemia, em especial, portadores de diabetes crônica. A hipótese se fundamenta em números. Segundo o levantamento, em 2020, quando a Covid 19 se instalou ao país, a média diária de amputações chegou a 75,64 e, em 2021, subiu para 79,19. Nesse período, 56.513 brasileiros se submeteram ao procedimento, uma média de 2.354 cirurgias mensais ou 77,4 por dia.

O cirurgião vascular Sergio Belczak, vice-diretor da SBACV, atribui o crescimento das amputações ao fato de que, durante a pandemia, as pessoas se cuidaram pouco e deixaram as lesões evoluírem a níveis irreversíveis. Segundo ele, para um diabético, por exemplo, qualquer feridinha vira um grande problema. O diabético, explica, não produz insulina adequada e isso contribui para o aumento de açúcar no sangue, prejudicando a circulação sanguinea, comprimindo os nervos e inibindo a sensibilidade.

Belczak aconselha a realização de exames de glicemia preventivos para, primeiro, identificar a predisposição do diabetes e, caso a doença seja diagnosticada, tomar os devidos cuidados para controlar os níveis de açúcar no sangue e, simultaneamente, observar qualquer alteração nos pés para tratar o mais rápido possível antes que evolua para algo mais grave,

Durante a pandemia, especialistas confirmaram que uma em cada cinco pessoas que chegam aos consultórios ou postos de saúde com sintomas de diabetes não sabe que é portadora da doença. A informação é preocupante, na opinião deles, porque pacientes com diabetes e úlceras nos pés – geralmente é só nessa situação que a maioria procura atendimento – apresentam taxa de mortalidade duas vezes maior em comparação a diabéticos sem ulcerações.

Cenário Nacional

Na série histórica de casos na qual o estudo se baseou – entre 2012 a 2021 –  o número de pessoas amputadas em todas as regiões do país aumentou 53%. Em 2021 foi registrado o maior volume de procedimentos: 28.906 cirurgias, com média diária de 79,19 amputações. Com base nos dados coletados nos três primeiros meses do ano, quando 82 pessoas por dia foram submetidas a amputação dos membros inferiores, o estudo aponta tendência de continuidade no crescimento dos procedimentos. 

As regiões Sudeste e Nordeste registraram as maiores altas em números absolutos. Foram amputadas 103.509 pessoas nos primeiros três meses deste ano (42% do total de cirurgias) no Sudeste contra 80.124 no Nordeste. Na sequência aparecem o Sul, com 35.222 registros; o Centro-Oeste, com 13.514, e o Norte, com 13.441.

Embora o crescimento no número de amputações entre 2012 e 2021 seja equilibrado em todas as regiões do país, a variação percentual nesse período se destaca em alguns estados. Alagoas, por exemplo, teve o maior número de casos, alta de 173% na comparação entre o início e o fim da série histórica, passando de 182 cirurgias 497. Em seguida aparecem Roraima, com variação de 160%; Ceará, 146%; e Rondônia, com crescimento de 116%. Na contramão dos dados, Amapá e Amazonas foram os únicos estados com queda nos procedimentos de  29% e 25%, respectivamente.

Em números absolutos, os estados que mais realizaram amputações foram São Paulo (51.101), Minas Gerais (26.328), Rio de Janeiro (21.265), Bahia (21.069), Pernambuco (16.314) e Rio Grande do Sul (14.469). Já os com menor número de registros são Amapá (315), Roraima (352), Acre (598), Tocantins (1154) e Rondônia (1383).

O crescimento do número de procedimentos também teve impacto nos cofres públicos. Apenas em 2021 foram gastos R$ 62.271.535.96 em amputações em todo o país. Já entre janeiro de 2012 e março de 2022, considerando a inflação de cada ano, o governo desembolsou um total de R$ 660.021.572,69, ou média nacional de R$ 2.685,08 por caso.

Alertas e prevenção

Os médicos alertam que, no caso de diabetes, cujos pacientes são as principais vítimas das amputações, é preciso estar atento a todos os sinais. Um pequeno ferimento pode resultar em infecção que evolui para gangrena e levar à perda dos membros inferiores. Segundo especialistas, a doença impacta a circulação sanguínea porque gera o estreitamento das artérias, causando redução dos índices de oxigenação e nutrição dos tecidos. Além disso, deformações nos pés e alterações de sensibilidade aumentam a chance do surgimento de pequenos ferimentos e potencializam sua evolução para casos mais graves. Estudos apontam que 85% das amputações relacionadas ao diabetes têm início com uma lesão não tratada nos pés.

Além disso, pessoas com diabetes, ao passar dos anos, desenvolvem doenças que as deixam mais suscetíveis ao desenvolvimento de feridas de difícil cicatrização (úlceras) e infeções. Uma delas, a neuropatia, causa perda da sensibilidade ao toque, à temperatura e à dor. Com isso, o paciente não sente quando fere o pé.

Mandamentos do diabético

· Não faça compressas frias, mornas, quentes ou geladas nem escalda-pés. Por causa da falta de sensibilidade acarretada pela neuropatia, as lesões podem ficar imperceptíveis;
· Use meias sem costuras ou com as costuras para fora para evitar o atrito da parte áspera do tecido com a pele;
· Não remova cutículas das unhas dos pés. Qualquer machucado, por menor que seja, pode ser uma porta de entrada para infecções;
· Não use sandálias com tiras entre os dedos;
· Corte as unhas retas e acerte os cantos com lixa de unha, mas com muito cuidado;
· Hidrate os pés, pele ressecada favorece o surgimento de rachaduras e ferimentos;
· Nunca ande descalço porque pode não sentir que o chão está quente ou que feriu o pé;
· Olhe sempre as plantas dos pés e trate logo qualquer arranhão, rachadura ou ferimento.
· Não use sapatos apertados ou de bico fino;
· Trate calosidades com profissionais de saúde;
· Olhe sempre o interior dos calçados antes de usá-los para saber se não há nada que cause feridas;
· Enxugue bem entre os dedos após o banho, a piscina ou praia.

Informações de SBT News