Amar por dois: o desafio das mães solo em conciliar carreira e família

De acordo com pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 37,7% das famílias brasileiras são compostas por mães solo – mulheres que criam seus filhos sem a ajuda dos pais das crianças. Este é o caso de Olandna Rodrigues, de 49 anos, que enfrentou sozinha o desafio de criar duas filhas. 

Após oito anos de casamento, Olandna se divorciou e, para renovar a vida, se mudou para Curitiba. “Eu tive as minhas filhas em São Paulo, frutos do casamento que não deu certo. Quando eu me separei, a Giovanna tinha 2 anos e a Fernanda, 3, e então eu me mudei”, explica. Nos dois primeiros anos, o pai das crianças manteve algum contato por telefone, mas não ofereceu ajuda financeira para auxiliar na criação das meninas. Quando começou um novo relacionamento, deixou de ligar para as filhas e só as procuraria anos depois. 

A mudança para Curitiba foi definida por causa da família dela, que mora na cidade. Os parentes ajudaram e deram suporte durante a fase difícil que Olandna passava. “As meninas eram bem pequenas e eu precisava ver o que eu ia fazer da minha vida. Eu já tinha uma irmã morando em Curitiba, então achei que seria melhor me mudar para cá”.

Mesmo com o apoio da irmã, Olandna sentiu que era o momento de mudar o rumo das coisas, ela queria dar um futuro melhor para as crianças. “Eu coloquei uma meta na cabeça. Não queria ficar na casa dos outros pro resto da vida, foi um momento muito difícil. Ter um teto para criar elas era o meu único objetivo”, conta. Assim que se familiarizou com a cidade, Olandna procurou emprego e foi contratada em uma empresa de banco de sangue, onde trabalha até hoje.

Com o tempo, as meninas cresceram e a situação melhorou. As duas filhas colaboram com a mãe e, unidas, se ajudam e dividem tarefas. “Quando eu engravidei, queria criar elas do meu jeito. Queria ser amiga, conversar, queria que elas vissem em mim um porto seguro e mesmo eu trabalhando muito, fazia questão de ter um tempo com elas para perguntar sobre o dia, sobre a escola, os amigos, tudo que pudesse aproximar a gente”. 

Reprodução/Arquivo Pessoal

Dez anos se passaram até que ela conseguisse realizar o sonho da casa própria, em uma cidade da região metropolitana de Curitiba. Esta conquista é relembrada com carinho por Fernanda e Giovanna, filhas de Olandna. “Ela trabalhou dias e noites por muito tempo e, mesmo com duas filhas totalmente dependentes dela, conseguiu alcançar mais essa conquista. Com essa forma de conduzir a vida, ela nos ensinou a sermos mulheres muito fortes e, principalmente, independentes em todos os sentidos”, dizem as irmãs.

Fernanda e Giovanna eram muito novas quando a separação dos pais aconteceu e, de acordo com a mãe, mantiveram contato com o pai por pouco tempo. “Depois de uns anos sem contato, ele tentou se reaproximar e foram elas que não quiseram. Não foi uma coisa que eu proibi, elas sempre souberam quem ele era, as duas têm o nome dele nos documentos, mas depois de tudo que passamos, foi uma escolha delas. Elas viram tudo que eu tive que passar, passei junto com elas por momentos muito difíceis. Eu até falei que se elas quisessem conversar, visitar, poderiam ir, mas elas não quiseram”, conta a mãe. 

“Elas cresceram com pais separados e eu nunca deixei de explicar isso pra elas, sempre conversei com ele na frente delas, nunca falei mal, nunca brigamos na presença delas porque eu não queria passar essa imagem. Criança não entende, mas eu expliquei desde muito cedo que nunca faltaria nada”, continua.

O caso das filhas de Olandna é uma exceção à regra. Estima-se que quase 100 mil crianças nascidas apenas em 2021 não tenham o nome do pai no registro civil. Esse número cresce cada vez mais. Em 2012, o processo de reconhecimento paterno foi simplificado, sem a necessidade de procedimento judicial e, mesmo assim, o número de crianças sem registro segue sendo alarmante. 

No mês da mulher, Olandna relembra sua trajetória como mãe e dá um conselho para as mulheres que, assim como ela, segue remando contra a maré: “Eu sempre senti muito medo, sempre quis proteger minhas filhas e por isso meu conselho, baseado na minha experiência de vida é: calma, foque sempre nos seus filhos, use eles como fonte de energia e se lembre de que nós não precisamos de ninguém para conseguir fazer isso, não precisamos apressar um relacionamento, colocar qualquer pessoa dentro da nossa casa em um desespero por ajuda. Você vai conseguir e se tiver que ser sozinha, vai ser. Você não pode ter medo de estar sozinha, as mães solo nunca estão sozinhas, nossos filhos estarão pra sempre com a gente. O importante é criar eles com amor e com a atenção que merecem”.