Aumento da inflação força brasileiros a mudarem hábitos alimentares

O constante aumento da inflação está forçando milhares de brasileiros a mudarem os hábitos alimentares. Se antes o prato era composto por arroz, feijão, carne vermelha e legumes, hoje a refeição é feita com fragmento de arroz, feijão quebrado, ovo e apenas uma saladinha simples para complementar. Tal realidade, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), afeta mais de 61,3 milhões de pessoas no país, enquanto 15,4 milhões já presenciaram alguma situação de insegurança alimentar grave.

Nas redes sociais, usuários relatam o crescimento da dificuldade de comprar produtos considerados básicos, como leite, frango e óleo. Em alguns casos, por exemplo, opta-se pela aquisição de produtos similares, como o soro de leite — vendido a cerca de R$ 4,70 — e a banha de porco na hora da fritura. Já com a proteína, carnes nobres estão cada vez mais distante do cardápio da população, que hoje precisa recorrer ao ovo, pés de galinha e, até mesmo, “osso suíno para sopa”.

“Hoje nós não temos mais aquela média de poder saborear um café todos os dias de manhã, temos que substituí-lo pelo chá. O brasileiro precisa improvisar, porque não conseguimos mais ter a carne todos os dias no nosso prato e temos que substituir por um ovo, já que nem o frango estamos conseguindo comprar. É difícil, muito difícil”, relata o pastor Cristiano de Campos, da Igreja do Evangelho Pleno em Cristo, que ajuda famílias em situação de vulnerabilidade.

Apesar da inflação de junho ter sido puxada pelos alimentos para consumo fora do domicílio (0,95%), os produtos da cesta básica também tiveram altas expressivas, com destaque para o leite longa vida (10,72%), que chegou a registrar preço de R$ 7,50, e o feijão-carioca (9,74%), que atingiu R$ 11,07 em alguns supermercados. O baixo consumo, por sua vez, fez com que os estabelecimentos diminuíssem a quantidade de produtos nas prateleiras na tentativa de melhorar o preço de compra das mercadorias.

“O dólar aumentando, a situação ainda de guerra na Ucrânia, a inflação elevada e o aumento nas tarifas de luz causam efeitos em toda a cadeia de abastecimento. A indústria não consegue sustentar aumentos e precisa repassar parte do custo. Isso afeta o consumidor final, que passa a buscar, cada vez mais, ofertas, novas e mais acessíveis marcas, ao ponto de trocar proteínas mais valiosas por outras, mais baratas”, diz Robson Munhoz, diretor de Customer Success da Neogrid.

Entre alguns dos produtos que perderam o poder de consumo por conta do preço também estão as frutas, legumes e verduras, além de margarina e requeijão. Por outro lado, itens como biscoitos, snacks e salgadinhos registraram aumento de 4,2% na aquisição popular, o que, para Munhoz, pode representar uma estratégia das famílias de baixa renda para saciar a fome no dia a dia, especialmente de crianças, apesar do baixo poder nutritivo dos produtos.

Luana Araújo, membro da Organização Banco de Alimentos, conta que cada vez mais voluntários e assistidos estão relatando a necessidade de comprar alimentos mais baratos e de qualidade inferior, já que não possuem verba suficiente para manter o padrão de antes. “Uma beneficiária do Projeto Amar, por exemplo, disse que não tem condições financeiras para comprar leite e tem oferecido soro de leite para os filhos, junto de farelo de arroz com fubá”, conta Luana, o aumento constante da vulnerabilidade social.

Evidentemente, a má alimentação é refletida no corpo, fazendo com que as doenças nutricionais tornem-se cada vez mais comuns entre a camada mais humilde da população. De acordo com o médico nutrólogo Nataniel Viuniski, a troca do óleo de fritura de boa qualidade por banha de porco pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares, enquanto o maior consumo de biscoitos e snacks, em vez de frutas e vegetais, prejudica a dosagem necessária de nutrientes e vitaminas no organismo.

“As pessoas não comem o que gostariam de comer e não comem aquilo que sabem que é mais saudável. Hoje, o que determina o consumo alimentar da população é o preço. Isso porque, por exemplo, todos sabemos que frutas são mais saudáveis do que o biscoito, mas, enquanto o preço das frutas for mais alto do que o preço do biscoito, uma família em risco nutricional vai escolher a segunda opção. Fora a questão social, essas pessoas podem estar nos dois extremos nutricionais, ou seja, com excesso de gordura e carência de nutrientes”, diz Viuniski.

Ele observa que tal cenário, consequentemente, aumentará o custo dos atendimentos de atenção primária à saúde e serviços públicos, uma vez que os casos de desnutrição, obesidade, diabetes, problemas gastrointestinais e doenças cardiovasculares irão aumentar. Isso significa que a situação, que já é grave, pode piorar ainda mais a longo prazo.

“É preciso ter união entre forças governamentais, sociedade organizada, comunidade científica e, inclusive, a indústria dos alimentos para encontrar soluções mais interessantes nutricionalmente e alimentos que tenham um bom conteúdo de proteína, carboidrato, vitaminas e mineiras com um custo adequado que possam ser consumidos pelas famílias”, reforça o nutrólogo.

Informações de SBT News