Surdez no mercado de trabalho: desafios em uma sociedade capacitista

Com 36 anos, a psicóloga Josiane Gerhardt Steglich descobriu ter deficiência auditiva. Após realizar diversos exames, veio a conclusão de que não havia tratamento cirúrgico para a perda de sua audição. Esse foi o início de muitas adaptações em sua vida. “O diagnóstico caiu como uma bomba. Com quase 40 anos de idade descobri que estava perdendo algo que sempre tive. Tudo mudou”, comenta.

Apenas 9% das pessoas nascem com deficiência auditiva, de acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva para a Semana da Acessibilidade Surda em 2019. Josiane, portanto, faz parte dos outros 91%, e conta que sua vida profissional mudou muito desde a descoberta. A necessidade de usar um aparelho auditivo trouxe inseguranças, junto da apreensão de indicar ou não a deficiência no currículo. Para ela, as entrevistas de emprego eram um verdadeiro desafio.

“Eu tenho perda auditiva leve, mas mesmo assim ficava com receio de colocar no currículo que tenho um grau de surdez. Isso deixava os recrutadores receosos, com medo de como o restante da equipe iria lidar com a minha deficiência e como eu mesma iria me relacionar com a equipe”, diz Josiane.

A psicóloga acabou aprovada para uma vaga e integrou um grupo de trabalho que compreendia suas dificuldades. Mesmo assim, como 37% dos deficientes auditivos, acabou partindo para a atuação autônoma, com atendimentos clínicos individuais. Os pacientes de Josiane são compreensivos e aceitam bem a condição da psicóloga, que não tem receio de fazer várias perguntas para garantir que tudo ficou bem entendido.

Para Josiane, a adequação e a aceitação das próprias dificuldades foram os primeiros passos para uma vida mais equilibrada. “Quando se tem deficiência auditiva, você fica excluído de conversas em rodas de amigos, de familiares, é difícil entender o que se fala e acabamos nos afastando. Por isso, tive que perder a vergonha de pedir para que repetissem as informações. É um trabalho que começa consigo mesmo”.

Inclusão

Completando três décadas de vigência, a Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência (Lei n. 8.213/91) garante a inclusão no mercado de trabalho. Segundo a legislação, empresas com 100 funcionários ou mais precisam destinar vagas a pessoas com deficiência. Apesar do avanço da lei, Márcia Bonetti, fonoaudióloga da Audiba, diz que o capacitismo ainda é o principal empecilho para a inclusão no mercado de trabalho.

“Muitas pessoas com deficiência são julgadas como incapazes para exercer determinadas funções. Em vagas abertas, que não são destinadas somente a PCDs [Pessoas com Deficiência], é muito difícil vermos uma contratação”, conta.

Para as mais de 10,7 milhões de pessoas no Brasil que vivem com deficiência auditiva, sendo 19% delas residentes da Região Sul, o uso de aparelhos pode ser um facilitador. Segundo Márcia, o dispositivo acaba auxiliando na adaptação ao trabalho. “Vemos muitos pacientes que conseguem se inserir no mercado de trabalho com o uso de aparelhos, pois estes auxiliam a comunicação e acabam reduzindo a distância que a surdez causa nas interações sociais”, finaliza.