Como ajudar as crianças na retomada das aulas presenciais

Mais de dez estados brasileiros já retomaram as aulas presenciais neste ano. Mais do que voltar para a escola, em muitos casos, os estudantes recomeçam os estudos presenciais após um período de intensos desafios pessoais, que, em muitos casos, os afastaram da rota de aprendizagem em que estavam inseridos.

Para a neurocientista Livia Ciacii os obstáculos para o processo de aprendizagem durante as aulas remotas estão diretamente ligados à emoção dos estudantes.

Uma emoção é um conjunto de respostas químicas e neurais que surgem quando o cérebro recebe um estímulo externo. No contexto da pandemia do coronavírus, houve um predomínio de emoções negativas e um estado de alerta constante, com risco à sobrevivência.

“Toda vez que o cérebro julga o ambiente como ‘ameaçador’, uma área cerebral chamada amígdala vai estimular outras regiões produzindo respostas de luta ou fuga. Quando está neste momento, o cérebro foca apenas na reação, não se motiva a aprender e tem dificuldade para socializar”, explicou a neurocientista do Método “SUPERA – Ginástica para o cérebro”, Livia Ciacci.

Por outro lado, quando alguém julga o ambiente como seguro, os mecanismos inibitórios que controlam as respostas de luta-fuga se mantém ativos. “Nessa situação, as vias neurais ativadas preparam o corpo para o contato social deixando os processos mentais como atenção, raciocínio e concentração livres para funcionar. O desafio dos educadores nesta retomada está em principalmente tornar o ambiente seguro para todos os envolvidos, alunos e professores, o que vai impactar diretamente na capacidade de assimilar novas informações”, detalhou a especialista.

Aluno validado e aprendendo mais

A emoção é parte integrante do processo de raciocínio e o auxilia em vez de atrapalhá-lo, como se costumava pensar antes. “A emoção afeta o processo de retenção das informações e a memória e é altamente dependente do significado que atribuímos às coisas e acontecimentos. Comprovamos isso quando executamos exercícios mentais (ábaco, jogos, enigmas etc.) para a atenção, raciocínio lógico e memória – onde a prática leva ao prazer de melhorar as funções, e o prazer motiva a tentar um desafio mais difícil, ou seja: tudo está ligado e por isso é tão importante neste processo de retomada validar os sentimentos de crianças e adolescentes”, lembrou a especialista.

Livia também falou sobre como a motivação pode ser recompensadora. “Quando um aluno é afetado positivamente por algo, ele se interessa, e então ele entende e consegue resolver um desafio novo. Ao conseguir superar o desafio o cérebro ativo os centros de recompensa e gera a sensação de bem-estar que mobiliza a atenção da pessoa e reforça o comportamento dela em relação ao assunto que a afetou”.

Como ajudar as crianças a retomar o interesse pela escola?

Ao longo da pandemia, levantamentos mostram os impactos psíquicos decorrentes do isolamento social em diferentes faixas etárias. Em especial aos jovens a pandemia levou ao uso excessivo de redes sociais e aumento dos sintomas de ansiedade, estresse e tristeza. “Quando pensamos que os jovens são um público que interage muito nas redes sociais, há uma tendência de eles voltarem à convivência presencial ainda “viciados” nas checagens constantes e dificuldade de concentração. Os estudantes ainda podem voltar trazendo emoções acumuladas nas tensões familiares e das experiências vividas no ensino remoto. Não há uma receita para o acolhimento perfeito, mas a maior preocupação daqui em diante deve ser a de criar um clima de segurança afetiva, só assim as emoções vão abrir caminho para o aspecto intelectual.

Validando sentimentos
Sabendo que os sentimentos positivos ou negativos interferem nos processos mentais mais complexos, como a tomada de decisão e o controle dos comportamentos, o foco da escola, segundo a especialista, deve ser na aceitação das diferenças e limitações de cada um, sem ignorar os impactos da pandemia em diferentes realidades sociais. “Estratégias personalizadas para que os alunos se autoavaliem e participem ativamente das metas que eles buscarão atingir podem ajudar na motivação. É hora de plantar a esperança, cada aluno deve sentir que ali é um lugar onde ele pode sentir o prazer de conseguir – seja qual for o seu interesse”, concluiu Livia.

Confira algumas dicas que podem ajudar neste processo:

• Melhore as conexões emocionais com as matérias a serem aprendidas, levando em conta as referências que fazem sentido para a geração;
• Criar avaliações colaborativas, favorecendo mais a discussão e construção de conceitos do que as respostas certas;
• Inclua a possibilidade de cometer erros e aprender com eles, usando estratégias que valorizem o erro;
• Não é hora de “marcar provas” coletivas ou de comparar desempenhos, aliás, qualquer rotina escolar que dê margem para o clima de ameaça, opressão, vexame ou de desvalorização do esforço pessoal, vai fazer o sistema límbico, situado no meio do cérebro, bloqueie o funcionamento das funções cognitivas de integração que permitem a resolução de problemas;
• O estudante, com seu repertório pessoal de vivências, deve avaliar o ambiente escolar e dar o colorido afetivo instantâneo, esse julgamento vai orientá-lo subjetivamente para tomar decisões. Se o objetivo é ter crianças e adolescentes motivados, as equipes escolares precisam oferecer uma recepção que favoreça os sentimentos positivos;
• Tarefas muito difíceis ou muito fáceis não ativam o sistema de recompensa, como resultado, desmotivam e deixam o cérebro frustrado. Por isso são abandonadas ou evitadas. Qualquer receita para uma capacidade de aprender deve incluir: Um ambiente seguro para tentar e errar a vontade, pessoas dispostas a tornar os temas interessantes, níveis de dificuldade que propiciem o prazer de conseguir.