Sobrinho com deficiência faz professora dedicar a vida à educação especial

Durante esta semana, o Massa News vai trazer histórias diversas de mulheres em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta terça-feira (8). E a primeira delas é sobre uma vida dedicada à educação e a fazer o bem. Essa é a história de Elizabete Alves, professora de 58 anos que trabalha há 12 anos com pessoas com deficiências múltiplas no Complexo de Saúde Pequeno Cotolengo, em Curitiba, e tem o afilhado como inspiração.

‘Bete’, como é chamada, nasceu em Marilândia do Sul, no interior do Paraná. Filha de trabalhadores rurais, enfrentou dificuldades desde cedo: a mãe morreu de câncer quando ela tinha seis anos, e o pai, que era alcoólatra, precisou separar os oito filhos.

Bete foi morar em Ponta Grossa. Lá, viveu com diversas famílias até a idade adulta, mas não era bem acolhida e chegou até mesmo a apanhar. “Antigamente não tinha Conselho Tutelar para te proteger. A família pegava você e dizia que era para adotar, mas não era adoção. Era para limpar a casa, cuidar dos filhos deles sem ganhar nada, a troco de um prato de comida, um quarto para dormir”, diz Bete.

Com 21 anos, a professora foi para Curitiba para trabalhar e estudar. Lá, reencontrou os irmãos e formou-se em Letras. Antes de terminar a faculdade já estava dando aula. Bete chegou a ter uma jornada tripla: além da escola, ela trabalhava como bancária e telefonista. 

Por duas décadas, Bete deu aulas de português e inglês para estudantes do ensino médio e também trabalhou com alfabetização de crianças e adolescentes. Tinha fama de ser uma professora das mais “tradicionais”, mas também era aquela que sempre recebia homenagens dos alunos na formatura.

Até que um acontecimento na sua família fez ela se dedicar ao ensino para um outro público.

Nascimento do sobrinho e início na educação especial

No dia 20 de janeiro de 1996, um dia antes do aniversário de Bete, nasceu Lucas, filho de um dos irmãos dela. Ela foi escolhida para ser a madrinha do menino, por causa da proximidade dos aniversários. Bete morava em Curitiba e o irmão, em São José dos Pinhais, e ela sempre foi muito próxima da família. 

O afilhado de Bete, Lucas, junto com o pai. Foto: Arquivo pessoal

Quando Lucas tinha seis meses de vida, Bete percebeu que ele tinha algo diferente dos outros bebês da mesma idade. Na época, a deficiência ainda era tratada como assunto tabu e informações sobre tratamentos eram escassas. Ela conta que o irmão e a cunhada tinham resistência em aceitar que o filho poderia ter alguma condição. “Quando eu falei pela primeira vez que precisavam procurar um neurologista, que Lucas não estava crescendo como as outras crianças, eles ficaram muito chateados comigo”.

Com um ano, o afilhado precisou ser internado no Hospital Pequeno Príncipe e Bete ficou com ele no hospital. Lucas foi diagnosticado com paralisia cerebral. O acontecimento foi uma “virada de chave” para a professora. Desde que percebeu que Lucas tinha alguma deficiência, ela começou a pesquisar mais sobre educação especial. Em 1998, começou um curso na área.

A professora ainda demorou alguns anos para ingressar no campo, e continuou com as aulas regulares. Nos anos que se seguiram, ela fazia o que podia para ajudar a família de Lucas, com o conhecimento que vinha adquirindo. 

Lucas era uma criança grande: aos nove anos, já tinha quase 1,60m, e os pais tinham dificuldade de tirá-lo da cama. Mas havia também os momentos alegres, quando o menino brincava com carrinhos que o pai construía para ele.

Mas, em novembro de 2005, pouco tempo antes de completar dez anos, Lucas morreu por causa de problemas respiratórios, agravados pela paralisia cerebral. E, no mês seguinte, Bete finalmente pode começar a atuar na área. Ela foi para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), onde trabalhou com crianças com Síndrome de Down. “Me doía muito o coração ter aprendido muito na Apae e não ter podido ajudar ele antes”, afirma Bete.

Trabalho no Cotolengo

Enquanto estava na Apae, Bete cursou Pedagogia e prestou concurso para educação especial em 2009. Ela passou, e escolheu o Pequeno Cotolengo para trabalhar. E foi ali que ela soube que queria dedicar sua vida para esse trabalho.

“Quando eu cheguei lá, eu vi crianças iguaizinhas a ele. Eram muito parecidas, parecia que eram o Lucas ali, precisando de mim, pedindo que eu estivesse ali. Eu não tinha dúvidas, escolhi ali para trabalhar”, relembra Bete.

Foto: Pequeno Cotolengo

O Pequeno Cotolengo abriga hoje cerca de 230 pessoas com deficiências múltiplas (físicas e intelectuais) de todas as idades, que foram abandonadas por suas famílias, sofreram maus tratos ou viviam em situação de risco. Eles moram na Instituição e recebem alimentação, atendimento de saúde e reabilitação. 

No Cotolengo, Bete trabalhou diariamente  por 12 anos dando aulas de Português para os alunos. Para o trabalho com pessoas com paralisia cerebral, as matérias são ministradas por meio de estímulos, para desenvolvimento motor e cognitivo. 

Muitos dos alunos do Cotolengo não conseguem falar. Para se comunicar com eles, Bete lembra do afilhado Lucas, que também não verbalizava, mas se expressava com o olhar. “Quando eu olho para aqueles que não se expressam mesmo, eu percebo aquele olhar, falar o que não se fala. É uma comunicação diferente”, explica. “Quando me perguntam ‘como você sabe o que ele quer?’, eu sei o que ele quer. Não precisa falar, é o olhar do coração. Quando olham pra gente, a gente capta. É um toque especial”, acrescenta.

Foto: Pequeno Cotolengo

Aos 58 anos, Bete já é aposentada. Mas com 33 anos de carreira como professora, 12 deles no Pequeno Cotolengo, parar não está nos planos. Hoje, ela trabalha meio período em outra função, atuando como professora de costura manual, uma atividade complementar.

E quando os alunos têm progresso, Bete afirma que ver a felicidade deles é uma sensação fora do comum, e que muitos dos estudantes que conseguem falar manifestam surpresa, pois acreditam que não conseguem realizar várias atividades.

“É muito bom ver eles falando ‘nossa eu consegui, consegui mesmo!’. Para eles é um passo de cada vez e é tão bonito de ver, porque aquela alegria deles transborda”, celebra a professora.

Após muitos anos de luta, a realização

Bete garante que, depois de passar pelo sofrimento na infância e de ter lidado com o luto pelo afilhado, ela ter lutado para crescer profissionalmente e estar hoje trabalhando por uma comunidade (e ter tido um filho que considera o seu “presente”), traz um sentimento de muita gratidão.

“Cada um deles é um pouquinho desse Lucas que eu não pude ajudar. Todo amor que dou para eles é como se eu estivesse resgatando esse Lucas. É algo que me realiza, faço com muito amor e dedicação. Amo demais. O Cotolengo me realiza”, conta.

E para Bete, o Dia das Mulheres significa muito. Para ela, a data representa a batalha e também a realização das suas conquistas.

“A gente já passou por tanta coisa, né? Essas mulheres maravilhosas que lutam, batalham… Esse Dia da Mulher é todo dia. Todo dia é um dia de batalha para nós, mas desistir jamais”. 

Foto: Pequeno Cotolengo