Com Biden, Bolsonaro fala sobre eleições auditáveis e defende soberania da Amazônia

LOS ANGELES (Reuters) – Em um encontro marcado pelo estranhamento, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu nesta quinta-feira pela primeira vez com o presidente norte-americano, Joe Biden, e, em uma fala em que defendeu a soberania brasileira na Amazônia e repetiu o discurso de “eleições auditáveis”, acrescentou o interesse em retomar a aproximação do Brasil com os Estados Unidos.

“Temos um interesse enorme em cada vez mais nos aproximarmos dos EUA. Vivemos há quase 200 anos em parceria. Em alguns momentos nos afastamos por questões de ideologia. Mas tenho certeza de que no momento da nossa chegada ao governo nunca tivemos uma oportunidade tão grande pelas afinidades que nosso governo tem”, afirmou Bolsonaro.

Apesar da decisão de ambos os governos de aceitarem o encontro bilateral, o desconforto estava visível entre os dois presidentes durante os primeiros minutos da reunião, que foram abertos à imprensa. Ao contrário da praxe diplomática, não houve imagens de ambos apertando as mãos. Biden e Bolsonaro já estavam sentados quando a imprensa foi autorizada a entrar na sala.

Durante a curta fala de Biden, o presidente brasileiro pouco olhou para o seu colega norte-americano. Já durante a fala de Bolsonaro, mais longa –cerca de sete minutos– foi a vez do norte-americano manter o olhar fixo à frente na maior parte do tempo.

Em meio às desconfianças do governo dos Estados Unidos com o risco representado pela retórica bolsonarista para as eleições brasileiras, o presidente mencionou o assunto, sobre o qual não pretendia inicialmente falar.

“Esse ano temos eleições no Brasil e queremos sim eleições limpas, confiáveis e auditáveis, para que não sobre nenhuma dúvida após o pleito e tenho certeza que ele será realizado nesse espírito democrático. Cheguei pela democracia e tenho certeza que quando deixar o governo será também de forma democrática”, afirmou.

Pouco antes, Biden elogiou o Brasil como uma democracia vibrante com instituições eleitorais fortes. Nos últimos meses, diversos enviados do governo norte-americano levaram recados em que pediam a Bolsonaro para moderar o discurso contra as instituições eleitorais do país, o que não surgiu efeito.

Entre os temas que o presidente brasileiro tentou vetar no encontro com Biden estava justamente admoestações sobre questões eleitorais, mas o governo dos EUA informou que eleições e democracia seriam sim discutidas no encontro.

Da mesma forma, Bolsonaro avisou que não queria ser cobrado por questões relativas à Amazônia, e acabou recebendo um elogio de Biden: “Vocês têm feito grandes sacrifícios como país na tentativa de proteger a Amazônia, o grande sumidouro de carbono do mundo. Acho que o resto do mundo deveria participar ajudando vocês a financiar isso para que vocês possam preservar o máximo que puderem. Todos nós nos beneficiamos disso”, disse.

Mais cedo, em conversa com jornalistas, Bolsonaro chegou a dizer que havia conversas sobre colocar recursos para proteger a Amazônia –uma cobrança constante do governo brasileiro– mas que esses recursos nunca chegavam.

Na bilateral, no entanto, Bolsonaro não falou de recursos. Mas reclamou de o Brasil ser supostamente ameaçado em sua soberania na região.

“O Brasil é um país gigantesco, de proporções territoriais entre as maiores do mundo, temos uma riqueza no coração do Brasil, a nossa Amazônia, que é maior que a Europa Ocidental. Com riquezas e biodiversidade, riquezas mineiras, água potável e uma fonte de oxigênio. Por vezes nos sentimos ameaçados em nossa soberania naquela área mas o Brasil preserva muito bem o nosso território”, disse.

Previsto para meia hora, o encontro entre os dois presidentes durou mais do que isso, mas nenhum dos lados tinha grandes expectativas de avanços em temas que, desde a eleição de Biden, não avançaram.

No governo brasileiro, a expectativa era apenas de abrir caminhos para retomar negociações. Do lado norte-americano, o convite a Bolsonaro, com quem Biden nunca teve qualquer relação, era garantir a presença de ao menos um dos chefes de Estado dos maiores países da região, depois que Andrés Manuel López Obrador, presidente do México, recusou-se a comparecer à cúpula.