Suspensão de prévias do PSDB escancara racha interno e retomada dependerá de viabilidade de aplicativo

Por Eduardo Simões

SÃO PAULO (Reuters) – O destino das prévias que definiriam neste domingo o candidato do PSDB à Presidência está nas mãos da viabilidade técnica do aplicativo contratado para a votação, disse o presidente do partido, Bruno Araújo, neste domingo, dia em que, além do fracasso tecnológico que impediu o anúncio de um vencedor, o racha interno dentro da sigla ficou evidente.

Suspensas devido à falha no aplicativo desenvolvido exclusivamente para a consulta interna, as prévias não têm data para serem retomadas e uma definição dependerá do parecer técnico a ser apresentado a Araújo e a representantes dos três candidatos –os governadores de São Paulo, João Doria, e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio–, na tarde de segunda.

“Tem uma coisa maior que a vontade dos dois governadores, que é a viabilidade técnica. Essa será a imperadora do processo”, disse Araújo a jornalistas após uma reunião com Doria, Leite e Virgílio na sede do PSDB em Brasília.

Pouco antes, Doria e Virgílio manifestaram em nota conjunta a posição de que as prévias deveriam ser retomadas no domingo, ao passo que Leite disse que o processo deve ser concluído, no máximo, até terça-feira.

Doria e Virgílio criticaram, em nota, o aplicativo usado nas prévias, chegando a afirmar, equivocadamente, que a fundação responsável pelo desenvolvimento era sediada em Pelotas, berço político de Leite. A informação foi corrigida pelo governador gaúcho, pois, na verdade, a Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FAURGS) tem sede em Porto Alegre.

Leite também negou alegação de adversários de que defenderia o adiamento das prévias para o ano que vem e disse que, se o processo não for concluído até terça, a legitimidade do escolhido na consulta interna pode ser “ferida de morte”.

Após a reunião com Araújo, Doria afirmou que ficou acordado entre ele, Leite e Virgílio que o limite para definição das prévias tucanas é o próximo domingo, 28 de novembro. Araújo, no entanto, insistiu em fala após a declaração do governador paulista que uma data depende da viabilidade técnica do aplicativo.

“O prazo é limite se o aplicativo apresentar viabilidade de ser resolvido até domingo, aí é factível. Mas não podemos nos antecipar a algo que já nos gerou trabalho hoje”, disse Araújo.

O presidente do PSDB disse ainda que as prévias são “irreversíveis” dentro do partido e, após a reunião, Doria afirmou que o resultado que será anunciado ao fim do processo será “definitivo”. Leite e Virgílio não falaram com jornalistas após o encontro.

O aplicativo usado nas prévias tucanas foi motivo de polêmica desde o início, ora por críticas da campanha de Doria, ora por parte dos apoiadores de Leite.

Entre os tucanos que não conseguiram registrar seus votos no aplicativo estão Virgílio e o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, presidente de honra do PSDB que governou o Brasil entre 1995 e 2002.

O partido assegurou que os votos computados na plataforma estão garantidos e atribuiu o problema ao fato de o aplicativo não ter dado conta da demanda de filiados que tentavam votar. Araújo garantiu em sua fala após reunir-se com os candidatos que não houve quaisquer problemas de segurança com o programa.

RACHA INTERNO

O impasse gerado pelos problemas técnicos sobre a retomada das prévias escancara a divisão interna na legenda –especialmente entre Doria e Leite–, que se expressou ao longo da campanha, mas não com tanta força como neste domingo, apesar de os três candidatos terem feito, mais cedo, discursos pela união do PSDB ao chegarem ao centro de convenção em Brasília onde ocorreu a votação presencial das prévias com urnas eletrônicas.

A maior parte dos votos, no entanto, deveria ser computada pelo aplicativo.

Antes da reunião com Araújo, Doria disse, sem citar o nome de Leite, que haveria quem quisesse “melar” as prévias tucanas.

Em sua fala, pouco depois, o governador gaúcho disse que a rejeição a Doria apontada em pesquisas “inviabiliza” a candidatura do governador paulista e que o PSDB deve ter um candidato com a cara do partido, e não o partido se moldar ao rosto do candidato.

Além da troca de farpas e dos problemas tecnológicos, as prévias tucanas também sofreram com outras polêmicas, como a acusação feita pela deputada Mara Rocha (PSDB-AC), que afirmou, sem dar detalhes ou fornecer evidências, que lhe ofereceram dinheiro para que votasse em Doria.

Um vídeo em que ela ameaça revelar quem teria feito a oferta caso não conseguisse votar circulou nas redes sociais. A deputada declarou que votaria em Leite, ao mesmo tempo que se disse apoiadora do presidente Jair Bolsonaro e disse que deixará o PSDB para se filiar ao PL, partido que atualmente é o favorito para receber Bolsonaro, atualmente sem filiação partidária.

Com a escolha de um candidato para o pleito do ano que vem, o PSDB busca reconquistar o protagonismo que perdeu na política brasileira após o fraco desempenho de Geraldo Alckmin nas eleições de 2018.

Mas as pesquisas mostram tanto Doria quanto Leite com intenção de voto de apenas um dígito, sem chegar a 5%, e bastante distantes do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as sondagens, e de Bolsonaro.