Troca na Petrobras não terá efeito prático sobre os preços, diz analista

A notícia no início do dia da renúncia do presidente da Petrobras, José Mauro Coelho, provocou logo de cara quedas nos papéis da empresa que chegaram a passar de 2% com poucos minutos de pregão em funcionamento. Era a consequência financeira da pressão política. Coelho já estava demissionário e a companhia à espera da aprovação do nome de Caio Mario Paes de Andrade como novo presidente. Mas a temperatura não aumentou de uma hora para outra. Desde o anúncio dos reajustes dos combustíveis na última sexta-feira (17) a chapa esquentou.

A gasolina subiu 5,18% para as distribuidoras. O diesel foi muito além: 14,26%. E, como era de se imaginar, a reação do Palácio do Planalto foi imediata. De olho no efeito dessas altas sobre os índices de inflação, eles próprios já muito elevados, o presidente Jair Bolsonaro (PL) chegou a falar em Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a cúpúla administrativa da estatal.

Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, exigiu a demissão de Coelho, falou em “tirar a máscara da Petrobras” e em investigar viagens e despesas pessoais dos executivos da empresa. Não é à toa que analistas e observadores do cenário político e econômico consideram a saída de Coelho uma vitória pessoal de Lira.

Preços

Mas, na prática, qual a consequência das mudanças sobre os preços praticados pela Petrobras? “A troca na presidência, principalmente para o consumidor, não tem efeito prático nenhum”, avalia Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura, ele próprio um ex-candidato a presidir a companhia.

A partir de agora, com a saída de Coelho, executivos e parlamentares ligados ao presidente da Câmara esperam maior alinhamento do novo presidente da Petrobras a reajustes de preços dos combustíveis mais espaçados entre si. 

Veja abaixo mais repercussões sobre a movimentação na Petrobras e as consequências para o mercado financeiro:

ADRIANO PIRES, Centro Brasileiro de Infraestrtura

“Se o petróleo tá baixo, 50 dólares o barril, o câmbio a uns R$ 3,50, e sem eleições, ninguém nem liga pra Petrobras. A questão é que, agora, se formou uma tempestade perfeita. Vc tem o barril do petróleo a 100 dólares. Câmbio a 5 reais. E ainda por cima a alta frequencia das eleições. Aí tudo que diz respeito a gasolina e diesel em alta, impacta na urna. O que a gente vê é consequência disso”.

“O que há de concreto pra baixar preços de verdade. O PLP-18, que limita os impostos estaduais a 17%. E a PEC dos combustíveis, que prevê compensar estados que toparem zerar o ICMS sobre o diesel e o GLP (gás de botijão)”. 

[O relator da proposta, Senador Fernando Bezerra (MDB-PE), estima que a PEC só será votada na semana que vem.]

CLÁUDIO FRISCHTAK, CEO da Inter B Consultoria

“Se houver qualquer tipo de congelamento, não dou 30 dias para faltar diesel no mercado. É desabastecimento. É difícil acreditar que um novo presidente, mesmo que seja o indicado pelo Governo, vá fazer algo diferente do que diz respeito a atual diretriz, de acompanhar as cotações internacionais para o petróleo. Se fizer…..o resultado é falta do produto. Desabastecimento”.

DAVID ZYLBERSTAJN, professor do Instituto de Energia da Puc-RJ

“O que o presidente da Petrobras recebeu foi uma ameaça. O que a gente tá vendo é uma pressão política para que a aprovação do nome do atual diretor executivo de Exploração e Produção da companhia, Fernando Borges, seja aprovado mais rapidamente. Mas em termos de preço….não deve haver grande mudança para o consumidor.”

DANIELLE LOPES, analista de ações e sócia da Nord Research

“Agora eles querem fazer com que o presidente chegue muito rapidamente no cargo. Mercado fica mais volátil, fica receoso. Por isso a B3 chegou a suspender as negociações com os papéis da Petrobras. É uma ação que tem grande representatividade no geral do índice, impactando todo o mercado”. 

Interinidade

Até que ocorra a definição quanto ao nome do novo presidente, o atual diretor executivo de Exploração e Produção da companhia, Fernando Borges, será o interino. Depois das pressões e oscilações do dia, os papéis da Petrobras terminaram a segunda-feira (20) com alta aproximada de 1%. Na avaliação do mercado, a renúncia de José Mauro Coelho botou um fim mais ” tranquilo” ao processo sucessório dentro da empresa.

Informações de SBT News