Pesquisadores da UFPR alertam para o alto abandono de cães doentes na região de Foz do Iguaçu

O alto índice de cães com Leishmaniose na região de Foz do Iguaçu despertou a preocupação do grupo de pesquisa Saúde Única e Vulnerabilidade, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O problema de saúde pública foi identificado após uma série de estudos realizados no local neste ano.

A pesquisa, inicialmente, teve o intuito de analisar o número de casos da Leishmaniose na região, já que a zoonose, que havia alcançado o status de endêmica no estado, voltou a ter casos positivos nos últimos dez anos. Em determinada área da cidade, ao realizar os exames, foi constatado que um a cada cinco cães estavam contaminados com a doença, o que já é considerado um número alto. Após análises em uma área central, os cientistas chegaram ao número de aproximadamente 50% dos cães contaminados (nove positivos em 19 exames realizados).

Os casos também foram identificados em aldeias indígenas da região. Por ser transmitida por um mosquito, é relativamente raro a doença apresentar alta frequência de contaminação em locais diferentes. A hipótese dos grupo de pesquisa é que o crescimento dos casos dentro dos locais de alta vulnerabilidade acontece devido ao alto índice de abandono de cães doentes nessas localidades.

Com um tratamento de alto custo para a doença e a recomendação principal ser a eutanásia do cão doente, parte da população da região abandona os cães nas proximidades das aldeias indígenas, dizem os pesquisadores. O coordenador do projeto, professor Alexander Biondo, afirma que existe uma falsa impressão de que os indígenas têm o convívio com cães na sua natureza e isso torna-se uma motivação para que a população os abandone nessas localidades. “Os indígenas não tinham cães e gatos e, até hoje, eles não costumam ter animais de estimação. O grande problema desse abandono é que os indígenas têm uma relação de liberdade com os animais. Então, quando os cães e gatos são abandonados, eles não prendem e também não cuidam do animal, porque nunca precisaram fazer isso”, esclarece.

Os animais abandonados também geram impactos no ambiente por serem fonte de contaminação através da eliminação de excreções e o descarte de carcaças em locais impróprios. Eles representam, ainda, um perigo para a fauna silvestre, atuando como predadores de animais em fragmentos florestais em centros urbanos e unidades de conservação permanente. Ao longo do tempo, o abandono cresce exponencialmente, pois aos poucos os cachorros doentes acabam se reunindo com outros que estão saudáveis, tendendo infectar outros cães e aumentar o número de casos na região.

Abandono e auxílio da população

O principal método para tentar controlar esse aumento nos números de Leishmaniose nas tribos indígenas é a erradicação do abandono de animais. No Brasil, o abandono e maus tratos de animais é um crime previsto no Art.32 da Lei Federal nº 9.605/98 sob pena de reclusão de 2 a 5 anos, multa e proibição de guarda.

Em locais mais isolados como tribos indígenas, os pesquisadores projetam a instalação de câmeras de segurança para capturar e punir quem abandona os animais. Além disso, Biondo destaca que é muito importante o auxílio da população em situações como essa. “Nós precisamos trabalhar com a responsabilidade das pessoas porque quem abandona acha que está no anonimato. Esperamos que sejam implantadas as câmeras de segurança ou até mesmo que as pessoas no entorno filmem o abandono para conseguirmos amenizar esse número de casos”, conclui.

O grupo de pesquisa da UFPR distribuiu gratuitamente cem cartazes com alertas sobre o abandono para serem afixados nas 66 aldeias indígenas que compõem o Distrito Sanitário Especial Indígena – litoral sul (DSEI-SUL).

Os pesquisadores também atuam em parceria com outras instituições (UNILA, UEPG, UDC e CCZ – Foz do Iguaçu), com comunidades em vulnerabilidade, como acumuladores de animais, moradores de rua, população carcerária, comunidades tradicionais de pescadores em ilhas oceânicas, indígenas e quilombolas. A proposta do grupo é realizar pesquisas aplicadas e intervencionistas com populações vulneráveis, priorizando a saúde e buscando saúde única.

Leishmaniose

Conhecida como Calazar, a Leishmaniose Visceral Canina (LVC) é uma zoonose causada por um protozoário do gênero Leishmania, que acomete os cães e que se tornam os principais reservatórios de transmissão para o homem. A doença é transmitida através da picada de mosquitos flebotomíneos, principalmente do gênero Lutzomyia, entre os quais se destaca a espécie Lutzomyia longipalpis, conhecida popularmente por mosquito-palha, birigui ou tatuquiras.

Por Emerson Araujo

As informações são da UFPR.