Vereador preso por desobediência critica homenagem a delegado: “Utiliza o cargo para fins de perseguição política”

A Câmara Municipal de Curitiba (CMC) aprovou o projeto que concede o título de Cidadania Honorária ao delegado da Polícia Civil do Paraná, Matheus Laiola, aprovado em primeiro turno com 28 votos “sim”, 4 votos “não” e 3 abstenções. Na discussão desta quarta-feira (9), transmitida pelas redes sociais do Legislativo, Professor Euler (PSD), autor da matéria, voltou a reiterar o currículo do homenageado, que, por outro lado, teve a conduta em investigação à frente da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) novamente criticada por Renato Freitas (PT).

O delegado, que é natural de Cândido Mota (SP), assumiu o cargo na Polícia Civil do Paraná em 2008, passando pelas delegacias de Toledo, Realeza, Castro e Foz do Iguaçu. Atualmente chefia a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente. O histórico profissional do agraciado, de acordo com o vereador, “comprova seu trabalho em prol de toda a sociedade curitibana e sua atuação na área da segurança pública”. “É um ícone na chamada causa animal e tem uma legião de admiradores em virtude do seu trabalho”, completou.

Mesmo frisando que Matheus Laiola é “um fenômeno nas redes sociais”, cuja notoriedade se dá em razão do seu trabalho na questão do meio ambiente, a escolha de Professor Euler para entregar este título ao delegado foi criticada por Renato Freitas. Na discussão, o vereador acusou o servidor da Polícia Civil de utilizar “o cargo para fins de perseguição política” por solicitar à Justiça um mandado de busca e apreensão em sua residência, para investigar sua participação na manifestação do dia 20 de novembro passado, na sede do Carrefour de Curitiba, em que ele pichou um dos muros do estabelecimento em protesto contra a morte de uma pessoa negra na unidade da rede de Porto Alegre.

Na ocasião, Renato Freitas já estava eleito vereador. “Eu fiz e de fato não nego. Faria novamente. Eu escrevi ‘a injustiça praticada em um lugar ameaça a justiça de todos os lugares’. E escrevi no Carrefour, depois do supermecado ser responsável pela morte violenta de uma pessoa negra, num ato de racismo estrutural. E escrevi com uma lata de spray e ele se utilizou da oportunidade para destruir minha imagem pública. E o promotor obviamente falou que aquilo era desproporcional e tinha indício de perseguição política”, afirmou, na sessão desta segunda-feira.

Conduta legal e racismo

Hoje, o autor do projeto de lei, defendeu a condução de Matheus Laiola à frente do caso e rebateu que o delegado tenha tentado se “promover pessoalmente às custas da perseguição” de Freitas. “Por motivos óbvios, jamais saberei exatamente o que é ser vítima de racismo. Jamais vou sentir realmente a dor que você e outros negros sentem. Sou absolutamente contra qualquer forma de preconceito e tenho nojo de gente preconceituosa”, continuou Professor Euler, para depois observar que o ato praticado por Renato Freitas, de pichar o muro do supermercado, é um crime ambiental, “com consequências patrimoniais e não pode ser naturalizado ou banalizado como uma conduta comum”.

Segundo Euler, Renato Freitas “tem direito de considerar se houve excesso na forma de agir” de Matheus Laiola, mas o delegado de Proteção ao Meio Ambiente, “agiu absolutamente dentro da lei” e sempre cumpriu suas funções de forma impessoal “investigando e prendendo pessoas do Batel ou investigando e deixando de prender pessoas absolutamente pobres, que foram acusadas de maltratar animais, apenas não tinham recursos para oferecer aos animais condições abastadas”. Para o vereador, é inadequado o colega usar motivações pessoais para aprovar ou desaprovar projetos na Casa. A conduta ideal, na sua opinião, seria Freitas se considerar impedido de votar, “já que há envolvimento de interesse pessoal”.

Rebatendo o autor da Cidadania Honorária, Renato Freitas respondeu que “em nenhum momento disse que o delegado agiu para se autopromover” e que “não pichou a cidade inteira, mas apenas escreveu no muro do supermercado porque estabelecimento causou a morte de um homem negro de forma violenta e brutal, tão somente por ser um homem negro”.

Além de Freitas, também votaram contra a homenagem as vereadoras Carol Dartora e Professora Josete, da bancada do PT, e Maria Leticia (PV). Indiara Barbosa e Amália Tortato, do Novo, e Salles do Fazendinha (DC) se abstiveram do voto. “Embora tenha ouvido com cuidado todas as argumentações do vereador Renato Freitas e estar estudando sobre o racismo, votou sim por não poder partir da presunção de que o homenageado tenha praticado um excesso. Um projeto de lei que concede o título de cidadão honorária são baseados em informações objetivas e qualquer tipo de conduta que desabone a aprovação do projeto sejam de caráter oficial e objetivo”, disse Dalton Borba (PDT), na justificativa do voto favorável. 

Procurado pela equipe do Massa News, o delegado Matheus Laiola não quis se manifestar sobre a postura do vereador.

Perturbação e desobediência

Renato Freitas (PT), que cumpre seu primeiro mandato em Curitiba, foi detido por policiais militares enquanto jogava basquete com amigos, na tarde de sexta-feira (4).

A abordagem feita na Praça 29 de Março foi filmada por um colega do parlamentar. Ele jogava basquete com alguns amigos que estariam ouvindo música. Conforme testemunhas, os policiais comunicaram que eles assinariam termo circunstanciado por perturbação do sossego e por “atrapalhar a ação da PM”.

A ação foi registrada em vídeo e publicada nas redes sociais do vereador, confira:

Com informações da Câmara Municipal de Curitiba