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De Carona: mulher na boleia, sim senhor!

(Foto: Mariana Lopes) - De Carona: mulher na boleia, sim senhor!
(Foto: Mariana Lopes)

Era início de julho. O Sul estava em baixas temperaturas. O destino oferecia o oposto, muito pó e calor. Nada de passeios, hotéis e pontos turísticos. A viagem era na boleia do caminhão, sob as rodas do quarto eixo vermelho – dia e noite rodando no objetivo de chegar ao carregamento e descarregamento da carga. A primeira carga era milho.

De acordo com a motorista Viviane Gonçalves, diferentemente dela, essas toneladas de grãos que ela carregava no caminhão atravessariam o Oceano Atlântico e “parariam no exterior”. A pergunta foi simples, mas silenciou o ambiente em meio ao barulho que ecoava de dentro da cabine do veículo. “Você faz ideia do que significa esse carregamento? O fato de ser exportado e da importância dele para a economia do País?”, indagou a repórter para a motorista. Sem jeito e sem demonstrar resposta Viviane pensou e respondeu: “Sinceramente... nunca tinha pensado nisso. Mas é verdade, não é? De pouquinho em pouquinho, nosso trabalho faz a diferença.”

Pula de um lado, pula de outro. Os caminhões ultrapassados somam-se, aos poucos, pelo olhar que, descompromissadamente, contabiliza um a um que vai ficando pelo retrovisor. Os caminhões menores? Sempre levam apelidos como “muriçoca”, “jacaré”, entre outros. Os “maiores” reinam, enquanto os mais velhos sofrem para subir a serra com o carregamento. 

Em meio aos sons e gêneros das inúmeras estações de rádio, a conversa se desenvolvia. Os ritmos não eram escolhidos, a rádio que “pegava” era a escutada. Na estrada não há escolhas, os motoristas se consideram com sorte quando conseguem algum sinal para ouvir música, programas ou noticiários.

Durante a viagem, a cabine se encheu com o som do sertanejo, axé, pagode, rock, funk, pop e MPB. No Mato Grosso, a maioria das rádios tocam sertanejo, já no Sul, próximo a Curitiba, foi possível encontrar uma variedade maior de rádios, onde era possível escutar até MPB e rock. Mas claro, se nenhuma estação agrada, ainda existem as opções dos CDs, que mesmo que um pouco riscados, ainda são melhores do que viajar no solitário e absoluto silêncio. Detalhes da vida na boleia que foram descobertos entre horas de viagem e conversas com a caminhoneira.

(Foto: Mariana Lopes)(Foto: Mariana Lopes)

Vaidosa, sempre perfumada, com roupa da moda e caminhão limpo, Viviane se destaca em meio a tantos caminhoneiros. Para ter ideia, ela conta que o seu último caminhão era todo cor-de-rosa por dentro, agora, diz que essa fase já passou. Mesmo tendo orgulho da profissão, confessou que ser mulher em um ramo ainda considerado masculino é um dos desafios de ser caminhoneira.

Viviane explica que os homens não a ajudam. Pelo contrário, ficam olhando e esperando ela fazer algo errado. “Se algum se dispõe a ajudar facilmente é preciso ter cuidado.Alguns dos que ajudam acabam pensando que eu estou devendo algo para eles, já que “me deram uma mãozinha”.  Nada de dinheiro, eles podem querer algo comigo, então preciso ficar atenta”, disse.

Durante os dias de viagem, a repórter Mariana dormiu sozinha em um dos caminhões, enquanto Márcio e Viviane descansavam no outro. Em alguns lugares, a caminhoneira alertou a repórter para não descer ao chegar no posto onde dormiriam. Sem segurança no local, era melhor não mostrar que havia uma mulher sozinha no caminhão. Ou seja, ela chegava de um dia inteiro de viagem e não podia ir ao banheiro para fazer as necessidades e nem tomar banho - ações para minimizar o risco de dormir ali. 

Entretanto, sob a perspectiva feminina, Viviane confessa que a profissão dela é vista com admiração. Quando a motorista passa por cidades pequenas e as mulheres a olham no caminhão, saem de suas casas para olhar, ou acenar mandando beijos. “Nessas horas a autoestima vai lá em cima! É bom demais ver que elas me admiram no volante. Muitas me enchem a bola dizendo que sou corajosa e guerreira. Isso é muito importante para mim, ser reconhecida nesse meio tão masculino.”

Sonho de menina

Com muita personalidade, Viviane é uma pessoa que batalhou na vida e atualmente trabalha com o que ama. De descendência italiana, falava e ria em volume alto. Com bastante fé, vive com esperança na vida e ajuda, o máximo que pode, sua mãe e pessoas que passam por dificuldades. Irmã mais velha de doze irmãos, é muito alegre, prestativa e independente.

Quando tinha apenas 7 anos, viajava nas férias com o pai, que é caminhoneiro até os dias de hoje. Para ela, tudo era divertido e visto como uma aventura durante os momentos na boleia. Tanto que esse amor cresceu e passou a fazer parte da vida dela. Mesmo como boa empresária e com clientes fiéis, ela fechou o salão de beleza que tinha e largou tudo para ser caminhoneira.

“Eu não aguentava mais viver dentro de quatro paredes. Meu pai sempre foi resistente em me ensinar a dirigir caminhão. Dizia que não era coisa de mulher e nunca me deu bola. Pois fui teimosa e lutei pelo meu sonho. Tirei carta “E”, peguei experiência na estrada e fui atrás. Hoje sou caminhoneira com orgulho e não troco isso por nada.”

De Carona: mulher na boleia, sim senhor!

Durante os 9 dias na boleia foi possível conhecer dezenas de histórias de profissionais no volante. Colocar-se no lugar do outro por meio do jornalismo de imersão, proporcionou um contato direto com a realidade daqueles que vivem tão distantes, mas tão perto da população.

(Imagem: Criação / Mariana Lopes)(Imagem: Criação / Mariana Lopes)

(Imagem: Criação / Mariana Lopes)(Imagem: Criação / Mariana Lopes)