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Especial: vamos falar sobre suicídio?

Foto: Free images - Especial: vamos falar sobre suicídio?
Foto: Free images

Se a “regra” nos meios de comunicação, até então, era não falar sobre suicídio, nas últimas semanas o tema está na pauta de grande parte dos veículos. Desde segunda feira (17) pelo menos cinco casos de tentativa de suicídio foram atendidos em Unidades de Saúde da Prefeitura de Curitiba. Todos os pacientes eram adolescentes e tinham entre 13 e 17 anos e o município chegou a emitir um alerta na tarde desta terça (18). 

Os casos estão sendo investigados e ainda não se sabe se têm relação com o jogo “Baleia Azul” que propõe 50 desafios e, por último, sugere que o participante tire a própria vida. Além disso, o assunto foi escancarado pela série “Os 13 porquês” lançada no dia 31 de março pela Netflix.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, em média, uma pessoa tira a própria vida a cada hora e, nesse mesmo período, outras três tentaram se matar sem sucesso. Falar sobre isso é preciso, e a reportagem do Massa News conversou sobre o assunto com o presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria, Osmar Ratzke.

Massa News - O suicídio é um problema de saúde pública?

OR - É uma preocupação antiga de nós psiquiatras. O suicídio sempre existiu. Não é porque surgiram esses fatos agora que a preocupação surgiu. O bom disso é que o tema está ficando mais público e mais discutido.

Massa News - A informação é uma forma de prevenção?

OR - Quanto mais a gente souber melhor. Até para poder ajudar. Os próprios professores na escola devem prestar atenção no comportamento dos alunos, no estado de ânimo, no humor, no rendimento escolar.

São quadros [clínicos] que têm tratamento, têm controle e podem ser superados, podem mesmo desaparecer. Os tratamentos avançaram muito, há muitas novas abordagens da psicoterapia, por exemplo, da parte de medicação então, nem se fala.

Massa News - A série da Netflix “Os 13 Porquês” e os episódios do jogo”Baleia Azul” envolveram adolescentes. Mas o suicídio não atinge apenas os jovens, certo?

OR - Não, não, em qualquer idade. Pessoas idosas, o adulto jovem, a pessoa na meia idade. É que a adolescência é uma fase mais crítica. Na adolescência, o suicídio é a segunda maior causa de morte. Mas não acontece só na adolescência, mas em qualquer época da vida.

Massa News - Antes de qualquer coisa, de se falar em medicação, por exemplo. Qual deve ser o primeiro passo?

OR - A gente deve estimular as pessoas a procurarem ajuda. Primeiro conseguir se abrir para alguém, para algum amigo, um familiar. O primeiro passo é “abrir o jogo”. E tem o CVV que é o centro de valorização da vida, que funciona 24h para esses casos. Eu acho que a possibilidade de ajuda existe e deve ser procurada.

O problema é que as vezes elas “se escondem” dentro do seu sofrimento. É importante haver essa transparência entre pais e filhos, entre adolescentes e amigos, tem que haver uma coisa que não pode ficar escondida, tem que “ficar aberta”.

Massa News - Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria indicam que 96,8% dos casos de suicídio têm relação com doenças mentais como a depressão e o transtorno bipolar. Falar sobre a saúde mental também é uma forma de prevenir o suicídio?

OR - É uma forma de prevenção e uma forma de aceitação. Porque esse tipo de problema ainda é muito estigmatizado. É um estigma que já existe há milhares de anos com relação a qualquer problema mental. Na medida em que a gente consiga vencer esse estigma, eu acho que a busca para tratamentos vai ser mais frequente.

Nós sabemos que, por exemplo, na depressão um mínimo de pessoas procura tratamento. Grande parte acha que é assim mesmo, vai levando a vida meio “cambaleando” e não busca tratamento.

Massa News - Entre as doenças mentais, a depressão é a mais comum. Neste ano a própria Organização Mundial da Saúde escolheu a depressão como tema do Dia Internacional da Saúde. Quais os sintomas mais comuns?

OR - O principal é o desânimo, a tristeza, a falta de energia para fazer as coisas. O não sentir prazer mais, por exemplo, para fazer as coisas. Tudo isso sem dúvida já cria um alerta.

Massa News - O que fazer quando esses sintomas são identificados? 

OR - O fundamental é tentar um contato. Ver quem da família tem mais afinidade com essa pessoa, e pedir para que essa pessoa procure convencê-la a buscar ajuda, a buscar tratamento. Uma terapia pode ser suficiente, em outros casos pode haver a necessidade de medicação, mas o importante é que a pessoa esteja sendo assistida.

Além de presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria, Osmar Ratzke é médico psiquiatra, especialista em psiquiatria, ex-professor da UFPR e professor da Faculdade Evangélica do Paraná. Ele fundou a única clínica de pronto atendimento psiquiátrico com atendimento 24h em Curitiba.