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Como os cabelos tem contribuído para o empoderamento das mulheres

(Foto: Divulgação) - Como os cabelos tem contribuído para o empoderamento das mulheres
(Foto: Divulgação)

Em nenhum outro momento os cabelos cacheados e crespos, em toda sua originalidade, receberam tanto reconhecimento e valorização no Brasil como hoje. Durante longos anos, a sociedade subjugou os cabelos com curvatura, considerando esteticamente bonito e aceitável somente o cabelo liso sem volume. Um dos motivos para essa consolidação de um padrão estético de beleza feminina foi resultante da colonização europeia, sobretudo nas Américas.

O estabelecimento desse padrão estético desencadeou uma onda de adoção a procedimentos químicos alisantes e, consequemente, uma triste perda de identidade. Meninas que desde muito cedo já não se reconheciam mais com os fios em sua formatação natural incluíram em suas vidas uma rotina de idas e gastos com o salão de cabeleireiro, que nem sempre era satisfatória e segura para os fios, já que, por vezes, voltavam danificados.

Dentro deste universo de adequação a uma realidade que não é sua, o preconceito e o bullying ganharam ainda mais espaço, e a autoestima da mulher, que deveria se orgulhar por suas características únicas e de grande valor cultural, perdeu seu sentido. O reflexo dessa busca por aceitação foi a beleza negra, afro, crespa e cacheada ter sido velada sob a padronização do “cabelo bom”.

No entanto, essa história real que representa muitas brasileiras começou a mudar de rumo. Além dos frequentes movimentos sociais negros para reconhecimento da representatividade e da cultura afro, a internet se tornou uma plataforma muito importante para a repercussão e o surgimento de fóruns, páginas e grupos de compartilhamento com informações de como cuidar das madeixas crespas e cacheadas, como texturizar e finalizar os fios e quais produtos usar para dar vida à formatação original do cabelo.

Descobriu-se, então, que os “cabelos com progressiva não voltam”, especialmente se a frequência do procedimento perdurou por anos. E mais: para retornar aos cachos e crespos naturais, é preciso aguardar a raiz sem química crescer. Iniciou-se, portanto, a fase de transição capilar, isto é, a decisão de abandonar – de forma definitiva – todas as químicas alisantes para assumir sua própria identidade: fios com curvaturas.

A transição capilar não é uma moda ou uma tendência. Muito pelo contrário, é um período que marca a autoaceitação e o autoconhecimento, respondendo a questões primordiais para a vivência plena do ser humano: Quem sou eu? O que meu cabelo representa? Qual é a minha posição na sociedade? E quais são as minhas raízes culturais? Esse momento de redescoberta da beleza e da autoestima influencia, inclusive, no posicionamento político e social do indivíduo em sociedade.

É de fundamental importância lembrar que a vivência da transição capilar não é um caminho fácil de ser trilhado. Lidar com as duas texturas presentes nos fios (raiz natural e comprimento alisado) é um dos momentos mais difíceis, além, é claro, da dificuldade de aceitação das pessoas mais próximas, como familiares, amigos, cônjuges e colegas de profissão, por exemplo.

No entanto, o empoderamento feminino que a liberdade capilar proporciona é capaz de transformar, além da aparência, o próprio comportamento humano, de forma a contribuir para uma mulher muito mais confiante, corajosa e disposta a lutar por seus ideais, objetivos e sonhos. A transição capilar é, portanto, uma decisão revolucionária e pessoal que acontece de dentro para fora.

Cabelo não define beleza, muito menos caráter. Cabelo é parte intrínseca de quem somos e do que representamos enquanto vivemos. Portanto, neste Dia Internacional da Mulher, lembre-se da luta de muitas que ainda são submetidas a regimes incompatíveis com a realidade em termos de beleza, salário e preconceito social. Valorize-se, empodere-se, reconheça-se e ame-se com tudo o que você já é e ainda pode ser.