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'Estávamos todos dormindo desde a criação do euro'

Entre 2009 e 2012, o projeto de integração europeia foi fortemente abalado. Foi nessa época que a Grécia revelou ao mundo estava quebrada. Mas nem os líderes políticos nem a população estavam preparados para o que viria em seguida: recessão e questionamentos sobre a própria sobrevivência do euro. Agora, os detalhes das negociações e da pior crise em 70 anos são revelados no livro Game Over, publicado pelo ex-ministro e artífice do pacote de resgate de 2010, George Papaconstantinou. 'Estávamos todos dormindo", disse.

Papaconstantinou assumiu o cargo de ministro de Finanças em 2009, no governo socialista de George Papandreou. Caberia a ele revelar aos gregos e ao mundo que, de fato, o país estava quebrado e que os números apresentados pelo governo anterior eram falsos. Meses depois, ele assinaria um pacote de resgate de € 110 bilhões, em troca de uma dramática reforma e corte de gastos.

O ex-negociador foi alvo de polêmica depois que nomes de seus familiares foram retirados de uma lista de sonegadores fiscais enquanto ele ocupava a pasta de ministro de Finanças. Ele seria levado a um tribunal e, em 2015, inocentado de grande parte das acusações. Abaixo, trechos de entrevista concedida ao Estado:

Por que o sr. decidiu contar tudo o que viveu como ministro em um livro agora?

Esse é um livro sobre um período dramático para um país e para a Europa. Eu fui a pessoa que tinha o trabalho mais difícil da Europa e que teve de tomar as decisões mais complicadas. Por isso, fui levado aos tribunais. Mas é importante que se diga que a Grécia estava ao fim de três décadas de más administrações. E tudo isso explodiu em 2009 por conta da crise internacional. Nossa dívida era duas vezes maior do que se dizia. Os números eram falsos. Não tínhamos como competir e não tínhamos credibilidade. Ninguém acreditava em nós. As escolhas eram horríveis. Escolhemos a menos pior, que foi o resgate de maio de 2010.

Como as decisões eram tomadas naquele momento?

Foi um período muito difícil para a Grécia. Às vezes, temos a visão de que decisões são tomadas com base em metodologias. Não era o caso da crise de 2010. Íamos decidindo à medida que as coisas caminhavam. A Europa jamais pensou que chegaria a esse ponto. Estávamos dormindo desde a criação do euro. O mercado estava dormindo e as instituições também. E, de repente, estávamos diante de um país quebrado, que poderia atingir todos os outros.

Como se chegou a isso?

Não vou dizer que foi culpa apenas dos governos anteriores. Temos problemas estruturais desde os anos 70. É todo um sistema que foi construído em uma base nada sólida. Uma bolha se sustentava a partir de um sistema de favores. Os políticos eram eleitos sob a promessa de servir aqueles que os tinham apoiado. A economia dependia do Estado e iríamos explodir mais cedo ou mais tarde. Mas poderíamos ter tido um ajuste mais suave.

Quem trouxe o FMI para a história?

Angela Merkel. Não a Alemanha. Ela mesmo, Merkel. Seu ministério de Finanças não queria. Mas Merkel não confiava na Comissão Europeia. Ela sabia que o bloco não tinha experiência em programas de ajustes. O FMI sabia fazer o trabalho e ela queria mostrar ao público alemão que ia ter uns caras duros na mesa. Eram os homens de preto. Até então, isso não existia na Europa. Na mente alemã, socorrer outro país era impossível.

Wolfgang Schauble (ministro das Finanças da Alemanha) de fato pediu para vocês saírem da zona do euro?

Sim. Mas era uma péssima ideia. Teria sido muito ruim. Não sei se ele queria ou se era tática de negociação. Merkel perguntava às pessoas mais próximas a ela o que ocorreria se a Grécia deixasse a moeda única. E muitos a respondiam: não sabemos. Já outros a diziam que ela poderia ser a chanceler que veria a UE entrar em um colapso. Merkel optou pela cautela.

As reformas adotadas foram suficientes?

Não. Continuamos a ter instituições muito fracas e isso é complicado se queremos ter investimentos de fora.

E as reformas foram justas?

Quando se faz tal reforma, ela vai ser sempre injusta. Salários tinham de ser cortados. O sistema de pensão não era viável. Na minha mesa, em outubro de 2010, eu tinha duas cartas de dois fundos de pensão dizendo que não haveria dinheiro até o final do ano e que o governo precisava injetar algo.

O sr. teria feito diferente se soubesse o que seria o impacto para a população? O modelo da Argentina seria uma opção?

Mesmo se eu soubesse em 2010 o que viria pela frente, não mudaria. Mas teria feito algumas coisas com mais radicalismo, como na questão da reestruturação da dívida. Acho que até hoje nós subestimamos o tamanho dos problemas que poderíamos ter tido se o resgate não fosse dado. E temos de lembrar que, no final, a Argentina pagou. Já a Grécia ganhou um perdão enorme de sua dívida.

Mas Grécia vai ter de ter sempre novas injeções de recursos para continuar na UE?

Espero que não. Mas se você me perguntar se acredito que um quarto pacote de resgate está descartado, eu diria que não.

O que teria ocorrido se o sr. não tivesse fechado o acordo de resgate e as reformas?

Bom, teríamos de ter declarado um calote. Isso significaria que BC europeu teria de cortar linhas para os bancos gregos. Isso significaria que os bancos teriam entrado em colapso, já que tinham uma exposição de ¤ 40 bilhões com a dívida grega. Isso significaria que todos os créditos no país seriam suspensos, a Grécia não poderia importar mais alimentos, remédios e energia. Ou seja, a Grécia iria entrar em colapso.

O cenário que é alvo de crítica hoje, portanto, é o menor dos males em comparação ao que poderia ter sido?

Não temos como saber como seria a guerra da qual não participamos. Mas a vida das pessoas teria sido muito difícil. Hoje, a Grécia perdeu 25% de seu PIB. Uma geração foi perdida. Tivemos um resgate de ¤ 110 bilhões, depois de € 130 bilhões e depois de ¤ 86 bilhões, além do maior perdão de dívida da história. Isso salvou o país? A resposta é sim. Fizemos as melhores decisões que podíamos. Tivemos erros sim. Mas a direção era correta.

O Brasil está sendo obrigado a passar por reformas e reduzir gastos. Que recomendações o sr. faz para o País?

A austeridade nunca pode ser um objetivo. Ela é um instrumento para se chegar a algum lugar. A questão é se pode ser feita de forma adequada, por um período de longo prazo para permitir que a confiança seja restabelecida de novo. É um jogo entre o Estado e a confiança dos mercados. Esse equilíbrio é sempre delicado. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.