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Kerry diz que Trump deveria receber orientações antes de telefonemas com líderes

PATRÍCIA CAMPOS MELLO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O secretário de Estado americano, John Kerry, afirmou no domingo (4) que o presidente eleito Donald Trump deveria receber orientações antes de falar pelo telefone com líderes estrangeiros. "Nós não fomos contatados antes de nenhum desses telefonemas, não nos pediram orientações", disse Kerry durante palestra. "Mas é aconselhável que ele receba recomendações (de assessores), para saber quais as questões importantes, qual é o atual estado da relação (com o país). Isso é importante e eu certamente recomendaria, mas obviamente não está acontecendo."

Trump falou por telefone com a presidente do Taiwan, Tsai Ing-wen, na sexta-feira (2), quebrando uma tradição diplomática de quase 40 anos e irritando profundamente a China. Desde que os EUA estabeleceram relações diplomáticas com a China, em 1979, um líder americano não falava com Taiwan. A China considera que Taiwan é uma província rebelde do país, e não uma nação independente. Após 1979, os EUA deixaram de reconhecer Taiwan como um país, por isso líderes americanos não mantêm conversas oficiais com presidente taiwaneses.

No domingo (4), uma das principais assessoras de Trump, Kellyanne Conway, minimizou a importância do telefonema. "Foi só um telefonema, ele estava simplesmente respondendo a uma ligação de felicitações", disse ela no programa "Fox News Sunday". O vice-presidente eleito Mike Pence também tentou esfriar a controvérsia.

A China afirmou que o telefonema foi uma manobra de Taiwan, mas registrou um protesto diplomático com os EUA.

O telefonema com Taiwan foi apenas a pior de uma série de gafes diplomáticas de Trump, que nunca ocupou nenhum cargo público.

Na semana passada, o presidente eleito ofereceu ajuda ao primeiro-ministro do Paquistão, Nawaz Sharif. "Posso ter o papel que você quiser para ajudar seu país a solucionar os problemas que o afetam", disse Trump no telefonema. Índia e Paquistão vivem em estado de guerra por causa de uma disputa territorial na região da Caxemira e a declaração poderia ser encarada pelo governo indiano como os EUA tomando partido dos paquistaneses. Trump elogiou o primeiro-ministro Sharif durante telefonema, dizendo que ele é "um cara incrível". Os EUA e Paquistão vivem às turras porque, na visão dos EUA, o governo paquistanês não faz tudo o que deveria para combater terrorismo.

Trump conversou com o polêmico presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, e a assessoria do filipino afirmou que Trump teria se mostrado compreensivo em relação à campanha contra traficantes de drogas no país asiático. O presidente Barack Obama tem sido bastante assertivo nas críticas contra violações de direitos humanos na repressão aos traficantes, que já resultaram em mais de 2 mil mortes nas Filipinas. Duterte chamou Obama de "filho da p..." publicamente.

As ligações de chefes de Estado e governo a um presidente eleito seguem regras diplomáticas. A ordem em que são feitas e retornadas e o conteúdo dos telefonemas se revestem de significado diplomático. No Brasil e na maioria dos países, o presidente eleito ou em exercício recebe um "briefing" antes de conversar com qualquer líder estrangeiro, onde são listadas principais questões da agenda bilateral e potenciais pontos sensíveis.

Apesar de o Brasil ser o maior país da América Latina, Trump ainda não conversou por telefone com o presidente Michel Temer. Temer enviou um telegrama felicitações ao americano e postou no Twitter oficial.

Mas Trump já conversou com o presidente argentino Mauricio Macri, que conhece há muitos anos e com quem já fez negócios. Segundo relatos, Trump teria inclusive mencionado a Macri um projeto imobiliário que ele tem em Buenos Aires e que está parado por entraves burocráticos. A possibilidade de conflitos de interesse por causa de seus negócios tem sido uma constante crítica contra Trump.

Os britânicos ficaram chocados porque Trump conversou com o primeiro-ministro da Irlanda antes de qualquer outro líder europeu. Apesar de Reino Unido e EUA terem uma "relação especial" de afinidades estratégicas, a primeira-ministra Theresa May foi a décima a ter seu telefonema retornado. Na ligação, Trump comentou de forma casual: "Se você vier para os Estados Unidos, não deixe de me avisar".

"Muitas pessoas gostariam de ver Nigel Farage representar o Reino Unido como embaixador nos EUA. Ele faria um ótimo trabalho", disse Trump em seu Twitter, referindo-se ao líder do Partido da Independência do Reino Unido, legenda de direita e rival do partido de May, além de grande defensor do Brexit. Autoridades britânicas disseram que o posto está ocupado e que eles já têm um excelente embaixador nos EUA.

No telefonema com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ele mencionou ter um sócio turco nas Trump Towers que construiu em Istambul, que disse ser "um grande fã" de Erdogan, cujo governo autoritário já encarcerou milhares de jornalistas, dissidentes e acadêmicos no país.

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