Sistemas e projetos para despoluição de rios estão no radar da sociedade

É possível acreditar que rios extremamente poluídos, ao ponto de não terem vida, possam ser recuperados? Por mais que pareça uma realidade distante, acredita-se que, futuramente, será viável tomar banho e nadar no rio Tietê, em São Paulo, no Capibaribe, em Recife, ou na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Para isso, segundo especialistas, é preciso tecnologia, vontade política e educação ambiental. 

Desde a ingestão do líquido potável até a sua usabilidade na produção de grandes indústrias, a água é vital para a sobrevivência humana. A garantia de qualidade para sua ingestão, por exemplo, se dá por meio do saneamento na captação em rios limpos. O uso do purificador de água em casas e empresas, nesse sentido, também é essencial para eliminar riscos à saúde que possam existir pela falta de tratamento.

Em entrevista à imprensa, o pesquisador do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec) e mestre em gestão ambiental Caio Scheidegger afirma que a tendência mundial é investir em tecnologias naturais e bioengenharia. Ele esclarece que os recursos utilizam os próprios sistemas vivos para recuperar o meio ambiente. Junto a isso, implementar sistemas descentralizados de saneamento e renaturalizar os cursos de rios e riachos urbanos também têm sido estratégias importantes. 

O especialista ressalta que as cidades brasileiras não convivem em harmonia com os cursos d’água e remanescentes de vegetação. Além do mais, “a lógica de grandes obras que tentam moldar a natureza tem se mostrado ineficiente”. Apesar disso, regiões no Brasil e no mundo trabalham para avançar na viabilidade da despoluição e manutenção da saúde dos rios. 

Uma ação pontual para limpeza da água gasta muito dinheiro público e não resolve o problema. Assim, o gestor ambiental enfatiza a necessidade de implementar a tecnologia dentro de um projeto abrangente e sistêmico.

Iniciativas internacionais 

Vale reparar que, atualmente, os projetos mais bem-sucedidos de despoluição de rios são no sentido de reverter a ação humana.

A sistematização do cuidado e empenho para limpeza foi o que aconteceu no rio Tâmisa, na Inglaterra. Suas águas saíram de uma situação de degradação extrema — com poluição de metais pesados — para um processo de balneabilidade.

O rio Han, na Coreia do Sul, estava tão poluído que, assim como o Tietê, era classificado como um curso d’água difícil de ser recuperado. No entanto, um projeto envolvendo a dragagem das águas, tecnologias eficientes de reconstrução de mata ciliar, esgotamento sanitário e limpeza de metais pesados possibilitou trazer novamente vida ao ecossistema hídrico.

Brasil também está atento 

Ações nesse sentido também são colocadas em prática em solo nacional. O projeto Sistema de Reuso de Água, em Afogados da Ingazeira, Pernambuco, transforma esgoto em água rica em nutrientes. Para isso, é aplicado um tratamento biológico com bactérias de decomposição, sangue de boi e cascas de laranja. 

Cerca de 50 m³ de efluentes (resíduos poluentes gerados por atividades humanas e industriais) deixaram de ser despejados no rio da cidade. Conforme o coordenador de engenharia e meio ambiente de Pesquisa e Inovação para as Cidades (Inciti) Djair Falcão, essa tecnologia pode ser ampliada para filtrar a água de esgotos e devolvê-la limpa aos rios. Ela é, portanto, considerada de baixo custo e replicável.

Em entrevista à imprensa, Falcão afirma que este é o momento de aprender com a natureza. Nesse processo, destaca que as biossoluções são aliadas eficientes no caminho de renaturalização de rios e riachos — o que envolve remover o revestimento de concreto e reimplantar a mata ciliar dos cursos d’água.

Importância do saneamento básico

A previsão do novo marco do saneamento, sancionado em 2020, e do Plano Nacional de Segurança Hídrica, divulgado em 2019, é de que sejam feitos investimentos superiores a R$ 500 bilhões em infraestrutura. A ideia é garantir a universalização do saneamento básico e conquistar a segurança hídrica nos próximos 11 anos. 

De acordo com o setor de Planejamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas (ANA), caso os investimentos não sejam efetivados, o Brasil deve chegar a 2035 com mais de 70 milhões de cidadãos em situação de risco hídrico. Além disso, pode passar por perdas econômicas na indústria e no setor agropecuário em torno de R$ 518 bilhões. Atualmente, cerca de 35 milhões de pessoas estão sob risco hídrico. 

O novo marco legal do saneamento estabelece que, até 2033, 99% dos brasileiros tenham acesso à água potável. De acordo com dados da ANA, o atual consumo de água para abastecimento urbano é de aproximadamente 29 milhões de litros por minuto, algo em torno de 482 mil litros por segundo. A previsão da Agência é de que essa quantidade aumente para 537 litros por segundo até 2040.