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Um rio, quatro capitais: uma jornada pelo Danúbio, no Leste Europeu

(Foto: Divulgação) - Um rio, quatro capitais: uma jornada pelo Danúbio, no Leste Europeu
(Foto: Divulgação)

É possível dizer que o Danúbio sofre de um problema de imagem. Associações familiares -- as composições de Richard Strauss, as elegantes cidades da Mitteleuropa, a arquitetura barroca -- são certamente corretas, mas o rio é mais do que apenas um cenário pitoresco para as maravilhas feitas pelo homem. Ele também leva por suas águas uma história.

Dario I, o Grande, cruzou o Danúbio no século XVI para subjugar o povo cita e, três séculos depois, Alexandre, o Grande, marchou com seu exército até as margens do rio para tomar o controle das tribos trácias e ilírias. Por muito tempo, o curso de suas águas marcou a fronteira noroeste do Império Romano, permitindo não apenas uma defesa natural de guerreiros das tribos além-Roma como uma condução conveniente de bens e tropas do império. À época, o movimento sobre o rio era feito em embarcações de lazer.

Com a nascente em Donaueschingen, na Floresta Negra, na Alemanha, e passando por cidades pequenas como Ulm, Ingolstadt e Regensburg, o rio entra no território austríaco depois da cidade fronteiriça de Passau. O primeiro porto do Danúbio na Áustria fica apenas em Linz, terceiro maior município do país e casa da famosa “torta Linzer” -- possivelmente, o primeiro bolo do mundo.

Fundada pelos romanos e um dos pilares do império de Habsburgo, Linz é conhecida por ser a terra natal do matemático Johannes Kepler, do compositor Anton Bruckner e do ex-ditador alemão Adolf Hitler. Dali, o rio passa por Melk e pelo vale de Wachau até chegar a Viena -- onde ele encontra a grande metrópole de todo o seu curso até acabar no Mar Negro.

Viena foi a capital do suntuoso império de Habsburgo e guarda edifícios que restaram daquela época gloriosa em que chegou a ser um dos centros do planeta, como se pode ver nos mais de mil dormitórios do Palácio de Schönbrunn. A cidade, porém, sempre foi permeada pela sua alta cultura: compositores como Haydn, Schubert, Mahler e Brahms construíram suas reputações ali, assim como artistas secessionistas como Schiele, Klimt e Kokoschka. Tanta criatividade não é surpreendente: a metrópole do Leste Europeu é repleta de cafés que, no passado, eram usados para discussões artísticas e políticas.

Não é coincidência que, por um breve período antes da Primeira Guerra Mundial, Trotsky, Tito e Stalin -- líderes políticos do século XX -- viveram como anônimos em Viena, frequentando os cafés.

Da Áustria, o Danúbio entra direto em Bratislava, capital da Eslováquia, a algumas horas de Viena (80 km) -- há rotas de barco entre as duas cidades que dura uma hora e pacotes turísticos que fazem o roteiro durante a noite. O horizonte da cidade é dominado por seu castelo, no topo de uma montanha, mas a capital eslovaca também tem uma arquitetura e um centro histórico que remetem ao período baixo controle dos Habsburgo. Uma série de novos prédios, como a famosa Igreja Azul, que dá a impressão de um bolo decorado com cobertura colorida, indicam um passado não tão distante da história local.

Saindo de Bratislava, o Danúbio entra na Hungria via Esztergom, onde vira em direção ao Sul até alcançar a bela capital do país, que é dividida justamente pelas suas margens: de um lado, Buda, a oeste, e do outro Pest, a leste. Patrimônio Mundial da Humanidade reconhecido pela Unesco, braço da ONU para a cultura, a metrópole húngara tem muitos e ricos museus, igrejas e prédios antigos -- os guias turísticos afirmam que Budapeste rivaliza com Viena no quesito beleza.

Entre os lugares mais visitados da cidade estão o Palácio Real e o tempo de Matthias, no distrito do Castelo (Buda). No entanto, o lugar mais romântico é, sem dúvida, o palácio Halászbástya (Casa do Pescador), construído no final do século XIX e que oferece uma vista panorâmica das margens do rio e dos grandes bulevares de Pest do outro lado.

Deixando Budapeste, o Danúbio flui em direção aos bosques húngaros em Puszta, antes de seguir a fronteira entre a Croácia e a Sérvia -- neste último, o rio entra a leste até chegar à segunda maior cidade local, Novi Sad, capital da província semiautônoma de Vojvodina, onde a fortificação de Petrovaradin, chamado de "Gibraltar do Danúbio", observa as três pontes que cruzam as águas.

Com uma população mista de sérvios, húngaros, eslovacos e outros, Vojvodina é uma das regiões mais multiculturais da Europa, fato confirmado pela diversidade de igrejas encontradas na cidade de Novi Sad. Ali também está uma importante universidade e, aos finais de semana, uma pequena multidão se concentra ao redor dos bares e cafés em seu centro velho.

A capital sérvia, Belgrado, mais adiante, é diferente: estrategicamente localizada na confluência entre os rios Danúbio e Sava, ela foi o local onde o Império Otomano se encontrou com os Habsburgos -- uma natural fronteira entre leste e oeste. Ainda hoje parece que, de várias maneiras, 500 anos sob governo turco deixaram marcas na língua, na cultura e na gastronomia.

O melhor lugar para ver o encontro dos rios é nos bancos rochosos do parque Kalemegdan, na cabeceira da velha cidade de Belgrado. Embora seja verdade que há pouco o que ver na capital que tem mais de 150 anos -- um dos seus edifícios antigos é um ainda operante tipo de bistrô local (kafana) chamado de Question Mark Inn --, o que chama a atenção ali é a sua vitalidade. Com uma vida noturna pujante e muitos cafés, bares e restaurantes, ela é considerada um dos centros mais dinâmicos dos Balcãs.

Saindo de Belgrado, o Danúbio continua determinado em direção ao leste da Europa, passando pela Romênia e voltando à Sérvia em margens opostas enquanto se espreme entre as gargantas rochosas do desfiladeiro de Kazan, onde o imperador romano Trajano construiu, desafiando a engenharia da sua época, uma grande ponte. Dali em diante, o rio ainda cruza a fronteira entre Bulgária e Romênia para finalmente acabar no delta do Mar Negro, deixando 10 países e quatro capitais para trás.

Colaboração Assessoria de Imprensa

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