4 possíveis impactos dos carros autônomos no Brasil e os obstáculos para isso acontecer

No Brasil ainda não existe um carro totalmente autônomo (que se movimente sem precisar de condutor). Segundo pesquisa da Statista, empresa alemã especializada em dados de mercado e consumidores, 61% dos brasileiros estão em dúvida se apoiam essa inovação. Com ela, muitas mudanças aconteceriam: a diminuição de acidentes e poluição, o trânsito melhoraria e teríamos outros métodos de entrega. Mas para que essa revolução aconteça, algumas barreiras precisam ser ultrapassadas.

Dados da analista Canalys mostram que foram vendidos cerca de 3.5 milhões de carros autônomos de nível 2 no Brasil. Ao todo existem 6 níveis de automação, mas no país só existem veículos até o segundo nível — o que ainda requer atenção do motorista. Segundo Naiallen Rodrigues, doutora em computação aplicada, os níveis 1 e 2 são mais mecânicos e os níveis 3, 4 e 5 são mais voltados para a inteligência do automóvel. “O veículo precisa ter essa capacidade de entender os movimentos das pessoas ao redor dele, e esse ponto mais alto de automação é muito mais complexo. Alguns cientistas acreditam que não vamos alcançar este nível”, destaca.

Menos acidentes

Com a chegada de carros inteligentes é provável que os acidentes diminuam consideravelmente, em razão dos dados levantados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que comprovam que no Brasil 90% dos acidentes de trânsito são causados por fator humano.

Exemplos disso são a desatenção dos condutores, a previsão e execução de manobra errada e o desrespeito à legislação — que varia entre excesso de velocidade, uso do celular, embriaguez, falta de cinto ou capacete e outros. 

Tendo em vista o uso de veículos autônomos e o surgimento de ruas e rodovias inteligentes, o relatório Mobilidade do futuro de 2020 da Allianz Partners prevê que até 2040 o número de acidentes fatais nas estradas será próximo de zero. Com a redução das mortes no trânsito, a qualidade de vida aumenta e os gastos com saúde pública diminuem.

Diferença no método da entrega

O delivery de comida com o uso de carros autônomos já é realidade em alguns países. A Nuro, empresa americana de robótica, iniciou as entregas na Califórnia neste ano sem precisar de funcionários. A startup pretende avançar nos projetos para que os automóveis realizem encomendas gerais, com foco no transporte urbano. A Nuro foi a primeira instituição no mundo que conseguiu autorização no Departamento de Veículos Automotores (DMV) da Califórnia para o uso comercial do carro autônomo. 

Assim, cenas como máquinas entregando pizza e vans andando sozinhas para fazer o delivery de pedidos serão comuns nos próximos anos. A Starship, empresa anunciada por Elon Musk, divulgou que foram realizadas mais de 1 milhão de entregas com mini robôs em ruas controladas em fevereiro deste ano. 

Caminhões da Volvo e da Mercedes-Benz rodam em operações de colheita de cana-de-açúcar no Brasil. Segundo dados divulgados pela Mercedes, o uso do aparelho no campo aumentou a produtividade dos clientes em 10%, e a Volvo anunciou que a automação gerou economia de até R$ 25 milhões nas plantações. 

Diminuição da poluição 

Carros autônomos são veículos automotores que podem ser elétricos, à combustão ou por hidrogênio. O Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) realizou uma pesquisa onde revela que os veículos são responsáveis pela emissão de 72% dos gases do efeito estufa. Seguindo o formato híbrido, os carros podem emitir menos gases poluentes se utilizada a energia elétrica, já que exige grande poder de processamento para lidar com câmeras, sensores e radares. 

Além da diminuição da “Ilha de Calor” — expressão utilizada para citar as altas temperaturas—, os motores não vão produzir ruídos, aliviando a poluição sonora nas ruas. O assunto foi tão discutido que, em 1996, foi criado o Dia Internacional da Conscientização Sobre o Ruído pela Center for Hearing and Communication (Centro de Audição e Comunicação) nos Estados Unidos.

Fluidez no trânsito

Com carros autônomos operando juntos, os congestionamentos poderiam diminuir em 35% segundo uma pesquisa da Universidade de Cambridge de 2019. Além do uso dos carros em si, para que isso ocorra é necessária uma comunicação efetiva entre essas tecnologias, como por exemplo sensores e sistemas inteligentes em cada carro e nos sinalizadores das vias (semáforos, faixas de pedestres, e radares).

Para o guarda municipal Gilney Camargo, com esses novos carros o trânsito reduziria e fluiria mais rápido nos horários de pico e reduziria o número de acidentes também. 

A diminuição dos engarrafamentos deve acontecer no futuro quando os carros autônomos se tornarem populares, e quando as ruas e rodovias das cidades forem transformadas para se adaptarem a essa inovação. A longo prazo é provável que seja possível se locomover entre as rotas mais rapidamente e de forma mais tranquila.

Obstáculos para os carros autônomos no Brasil:

Legislação

A presença de carros autônomos muda não só na rotina do tráfego de veículos, mas sim nas leis de trânsito. Em Portugal, a legislação já foi alterada em 2020 devido à circulação dos automóveis sem condutores, e no Brasil não deve ser diferente. “Quando a gente fala em automação veicular não é apenas o carro e a tecnologia. Também envolve leis e mudanças em toda a legislação brasileira”, explica Naiallen.

Conforme o Artigo 252 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), é considerada infração média “Dirigir o veículo com apenas uma das mãos, exceto quando deva fazer sinais regulamentares de braço, mudar a marcha do veículo, ou acionar equipamentos e acessórios do veículo”. Gilney acredita que, com a vinda de carros autônomos no Brasil, seria necessário um estudo para revisar as leis de trânsito de maneira que não afete a segurança do tráfego de automóveis. “Essa mudança deve acontecer sem que comprometa o bem estar das pessoas. Vai ter que reformular toda a legislação com foco na direção do carro sem as mãos ou até mesmo sem ninguém estar no banco da frente também”, conta.

Além das alterações nas leis, os veículos também podem afetar nas sinalizações e nas vias de trânsito no Brasil. “As sinalizações teriam que ser reduzidas e, além disso, o tráfego ia acelerar bastante, de maneira que os engarrafamentos diminuíssem”, destaca Gilney. 

Ataques cibernéticos

Para que os carros robóticos virem realidade, é necessário que sistemas mais evoluídos sejam criados. Em novembro de 2020 pesquisadores da Universi KU Leuven, na Bélgica, encontraram um problema na chave eletrônica de um Tesla Model X e conseguiram hackear o veículo. Antes de publicada, a falha descoberta foi comunicada à Tesla e a empresa reforçou seus sistemas de software. 

Com base em dados da Statista, mais de 70% dos consumidores acreditam que os sistemas não estarão a salvo de hackers. Futuramente os veículos além de se comunicarem com os sensores, serão interligados e se comunicarão entre si. Para isso, os sistemas precisam de proteção, para que durante a comunicação não exista um ataque virtual. Segundo Naiallen, a segurança cibernética é algo importante e que está crescendo bastante nas empresas.

Dilema moral 

Uma das principais barreiras para que os carros autônomos virem realidade são os dilemas que isso envolve. As leis da robótica estabelecem que um robô não pode ferir ou permitir que um ser humano sofra algum mal, e que um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos (exceto nos casos em que as ordens fossem ferir algum humano). Mas transferir a responsabilidade de vidas para que os carros escolham o rumo de situações importantes é um assunto que divide opiniões.

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) criaram a máquina moral, uma plataforma que simula diferentes cenários com o uso de carros autônomos, onde o usuário pode fazer suas escolhas de acordo com suas escolhas pessoais. O simulador foi criado para coletar a perspectiva humana em relação às decisões morais feitas pela inteligência das máquinas e poder usar esses dados depois na criação de inovações.

Para Naiallen, “o dilema mais forte é que todo mundo concorda que um veículo tem que ser justo e fazer o que é necessário para reduzir as perdas de vidas. Mas se essa redução e perda significasse que você vai morrer, você seria justo e daria preferência para comprar esse carro? Ou daria preferência para um carro que tem um peso maior para sua segurança?”.