Aumenta incontinência urinária em crianças durante pandemia

Na clínica especializada em nefrologia infantil Nefrokids, em Curitiba, cresceu o número de pais que levam os filhos com a queixa de que eles estão fazendo “xixi na cama e na calça”. A partir dos dois ou três anos, as crianças começam a amadurecer o ato de urinar e a controlar a própria bexiga. Mas se ela continuar a expelir urina de forma involuntária, nos anos seguintes, é importante ir ao médico para receber orientações e eventualmente investigar o caso, especialmente se a criança já apresentou episódio de infecção urinária.

“Agora na pandemia, chamou a atenção esse aumento e observamos que tem relação com o fato de que as famílias passaram a ficar mais tempo em casa. Por isso, os pais estão mais atentos ao comportamento miccional e intestinal dos filhos”, explica a nefropediatra Rejane Bernardes.

A especialista faz um alerta: a incontinência urinária compromete a autoestima da criança e deve ser tratada precocemente. O controle esfincteriano é um importante marcador de saúde física e do desenvolvimento psicossocial de crianças e, por isso, é considerado um marco no desenvolvimento fundamental. As crianças portadoras de disfunções do trato urinário têm duas a quatro vezes mais possibilidade de apresentarem dificuldades psicológicas, e 20% a 30% a mais de chances de manifestarem problemas comportamentais, principalmente quando associados à obesidade.

Os sinais de que há alterações funcionais na fase de armazenamento e/ou esvaziamento da bexiga podem ocorrer em crianças neurologicamente normais. Esses sintomas podem, muitas vezes, passarem despercebidos e interpretados como “preguiça”, “distração” ou “manifestações psicológicas”. Os pais devem se preocupar com os sintomas de enurese, escapes de urina durante o dia, ocorrência de infecções urinárias, dores abdominais e constipação. Também fica o alerta para a criança que faz “xixi” com urgência e manobras para evitar escapes de urina, como: trançar as pernas, manipular os órgãos genitais, saltitar, sentar em cima do calcanhar e ficar se espremendo.

As disfunções, segundo Rejane, podem estar associadas a constipação crônica, infecções de trato urinário recorrentes com refluxo de urina para os rins (em 20 a 40% dos casos) e cicatrizes renais. Crianças que apresentam alterações no jato de urina, com um fluxo muito forte, fraco ou interrompido com esforço, provavelmente, apresentam uma disfunção miccional. Importante pontuar que as meninas com vulvovaginites e assaduras recorrentes e refratárias podem estar apresentando pequenos escapes de urina, que só irão melhorar com o tratamento da bexiga.

Tratamento

A bexiga funciona como um reservatório para armazenamento e eliminação periódica da urina. Para que essas funções ocorram adequadamente é preciso haver o relaxamento da musculatura da bexiga para armazenar, e a contração do esfíncter para conter a urina. Na micção ao contrário, a bexiga contrai e o esfíncter relaxa. Essa coordenação envolve uma complexa interação entre o sistema nervoso central e periférico e fatores regulatórios locais, que são mediados por neurotransmissores.

A nefropediatra explica que o tratamento para incontinência urinária deve ser indicado de forma individualizada e de acordo com o tipo de disfunção, condição clínica e comorbidades. Alguns exemplos de terapias indicadas são relógio condicionador, biofeedback de assoalho pélvico (com eletromiografia, fluxometria ou manométrico) e estimulação elétrica transcutânea parassacral ou tibial posterior. Também pode ser recomendada uma dieta com fibras e laxantes, profilaxia antibiótica, anticolinérgicos e bloqueadores alfa adrenérgicos. Já a uroterapia, conhecida como terapia comportamental, é recomendada para todos os casos de incontinência urinária em crianças.