Noites mal dormidas podem afetar a saúde ocular

Seja por excesso de trabalho na frente do computador, estresse, angústia, medo ou ansiedade, o impacto da pandemia do novo coronavírus provocou mais um efeito colateral: milhares de pessoas têm apresentado cada vez mais distúrbios de sono.

Os números comprovam bem esta realidade. Segundo a Associação Brasileira do Sono, até o início de 2020 15% da população mundial sofria com insônia antes da pandemia. Um ano depois, esse número saltou para 34%. O Brasil também entrou para esta triste estatística. Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas realizada pelo Ministério da Saúde, mostrou que 41,7% dos brasileiros relataram alguma alteração do sono e baixa produtividade.

A saúde ocular também pode ser prejudicada pela privação de sono, além de todos os conhecidos sintomas – dores de cabeça e no corpo, mau humor, cansaço, irritabilidade, perda de memória, ganho de peso, dificuldade de concentração, lentidão de raciocínio, risco aumentado de doenças cardíacas. “A falta ou a má qualidade do sono podem aumentar o risco de alterações vasculares na retina que, se não tratadas a tempo, podem causar perda definitiva da visão. Além disso, poucas horas de sono diárias também podem influenciar na regeneração da rodopsina, um composto químico formado por escotopsina e 11-cis-retinal, que é uma derivada da vitamina A, o que pode levar a problemas como a xeroftalmia popularmente conhecida como olho seco, ou à cegueira noturna”, afirma a oftalmologista Micheline Borges Cresta, especialista em Córnea do Hospital de Olhos Inob, empresa do Grupo Opty no Distrito Federal. A insônia também pode provocar ardência, irritabilidade e ressecamento da córnea. “Se isso for persistente pode resultar no ressecamento contínuo da córnea levando ao surgimento de microerosões e a possível formação de ulcerações e inflamações”, complementa.

A médica ressalta ainda que o sono é crucial para manter o bom funcionamento do sistema imunológico. A relação foi atestada em um estudo da Universidade de Chicago (EUA) que comprovou que pacientes que dormiam quatro horas por noite tinham os anticorpos reduzidos pela metade, quando comparados àqueles que dormiram até oito horas. Ou seja, é durante o tempo de descanso noturno que nossa imunidade se recompõe. “Sem o repouso necessário, nosso corpo tem maior dificuldade para combater infecções. Sendo assim, é mais fácil contrair conjuntivite, tanto viral, quanto bacteriana e alérgica, principalmente em período de secas prolongadas como que estamos entrando aqui em Brasília”, alerta. “Para se ter uma noção de como é importante o sono, pesquisadores de quatro universidades americanas publicaram o estudo ‘Links Temporais entre o Sono e a Resposta dos Anticorpos à Vacina da Gripe’ em que perceberam que aquelas pessoas que dormiram curtos períodos de sono duas noites antes da vacinação produziram menos quantidades de anticorpos. Ou seja, a vacina foi menos efetiva”, comenta a oftalmologista.

Entre as dicas para garantir um sono de qualidade, uma alimentação balanceada, a prática constante de atividades físicas e a criação de rotinas, tanto para trabalhar como na hora de dormir. A exposição à luz emitida por eletrônicos – TV, smartphones, tablets e computadores – pode acarretar cansaço visual, vermelhidão, ardência, fotofobia, embaçamento e ou ressecamento visual. “É importante reduzir ao mínimo necessário o tempo de exposição aos equipamentos eletrônicos, pois a luz emitida pelas telas dos dispositivos bloqueia a liberação da melatonina. O melhor é desligar todos os aparelhos pelo menos uma hora antes de ir se deitar. E não deixe de visitar o oftalmologista regularmente para que qualquer alteração na visão possa ser diagnosticada o quanto antes. Prevenir é sempre o melhor remédio”, conclui a médica.