Saúde mental no meio acadêmico sinaliza atenção no pós-pandemia

O período pós-pandemia trouxe à tona uma situação vivenciada há tempos pelos universitários, o impacto do ambiente acadêmico na saúde mental dos jovens. Os casos de estresse, ansiedade, depressão e até ideação ao suícidio entre esse público teve uma alta significativa desde o início da quarentena. 

De acordo com um relatório publicado em março deste ano pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a pandemia de Covid-19 fez aumentar em 25,6% os casos de transtorno de ansiedade e 27,6% os de depressão, em todo o mundo em 2020. Os jovens, especialmente os de 20 a 24 anos de idade, estão entre os mais afetados. 

Pressão na realização de atividades, cobranças de prazos, competitividade, convivência social e tantos outros desafios impactam diretamente na saúde mental dos acadêmicos que, segundo os especialistas, não vai nada bem, principalmente no período pós-pandemia. O retorno às aulas presenciais elevaram os índices de ansiedade entre os estudantes. Alguns passaram a frequentar a universidade há pouco tempo, pois até então estavam acompanhando o curso pelo ensino remoto. 

“A saúde mental dos nossos universitários anda muito preocupante e com essa situação da pandemia isso realmente se agravou. Eles estavam numa bolha, reclusos em casa participando das aulas on-line por dois anos. De repente se vêem jogados no ambiente físico da universidade, principalmente os calouros, que ainda não tinham tido essa experiência. O nível de ansiedade aumenta porque entrar para uma universidade muda muito. O peso da responsabilidade, a pressão das atividades, a cobrança por prazos e a convivência social que ficou muito prejudicada com o isolamento social. Eles estão se readaptando. Na clínica temos recebido muitos casos de pessoas que estão chegando a ter crises de pânico porque não conseguem mais lidar com essa realidade, porque ainda coexiste o medo da Covid, ainda coexiste a pressão e essa dificuldade de convivência social”, explica Lucia Cecilia da Silva, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá (DPI/UEM).

Desafio antigo

Mesmo antes da quarentena, a saúde mental dos jovens já era objeto de estudo de vários pesquisadores. A estudante do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UEM, Tiéli dos Santos Brazoloto, sob a orientação da professora Lucia Cecilia, analisou oito artigos sobre o tema, publicados entre 2010 e 2018. O levantamento apontou que a transição para a vida universitária pode levar a algum sofrimento psicológico.

O trabalho relata ainda que, de acordo com o a Organização Panamericana de Saúde (OPS), o suicídio é a segunda causa de morte de jovens de 15 a 29 anos de idade no mundo, faixa etária em que, geralmente, grande parte das pessoas estão cursando o ensino superior. Já no Brasil, o boletim do Ministério da Saúde de 2017, aponta que nessa faixa de idade o suicidio é a terceira causa de mortes entre os homens e a oitava entre as mulheres. 

Para o relatório de 2018, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior entrevistou 420 mil estudantes universitários do país, 83% deles disseram ter dificuldades emocionais. 63% relataram ter transtorno de ansiedade; 32% alteração de sono ou insônia; 45% desânimo e desmotivação; e 10% ideação suicida. 

A professora Lucia Cecilia diz que são dados que merecem atenção. “As mortes por suicidio aumentaram muito desde 2010. Nos últimos 12 anos, a taxa de suicídio na faixa etária de 15 a 29 anos dobrou, saiu de 3.5 para 6.5”, alerta. 

Ainda segundo a professora, “o suicídio é um fenômeno múltiplo que envolve muitos fatores e muitas dimensões, então é difícil dizer qual é causa. Mas algumas motivações e situações estão implicadas nesse tipo de morte em relação a esses jovens. O que os estudos têm nos mostrado – e a nossa prática tem evidenciado também – é que situações de violência estão presentes em muitos casos. Todo tipo de violência, não só a física. Por exemplo, quando eles se encontram em dificuldade ou desamparo emocional, em situações de violência psicológica, abuso sexual, racismo, preconceito de gênero ou qualquer outro tipo de vulnerabilidade. Mas eu gostaria de frisar a questão da violência e abuso de drogas e álcool. Nossos acadêmicos estão precisando ter mais assistência, projetos mais orientados para saúde mental”, finaliza Lucia Cecília. 

Acolhimento

Na UEM a questão vem sendo notada. Alguns programas trabalham para minimizar os impactos que a vida acadêmica pode causar até mesmo antes do ingresso na universidade. O programa de Orientação Profissional em Clínica do Trabalho, por exemplo, é realizado há oito anos. Atende gratuitamente pessoas com necessidade de acompanhamento especializado com questões ligadas à escolha, atividade, ocupação e identidade profissional.

Os encontros são realizados semanalmente na Unidade de Psicologia Aplicada (UPA), ligada ao Departamento de Psicologia. Nas sessões individuais são trabalhados os medos, dúvidas, inseguranças e ansiedades relativas ao momento da escolha profissional e inserção no mercado do trabalho. 

As vagas são destinadas a pessoas com idade a partir de 15 anos. Período que geralmente se inicia as preocupações com a futura profissão e a vida acadêmica. O atendimento faz parte da formação profissional em Psicologia do Trabalho e é realizado por alunos do quinto ano do curso de Psicologia, supervisionados pelo docente responsável.

Não existe uma pesquisa tão abrangente quanto as nacionais especificamente, em relação a UEM, mas os dados parciais de um trabalho de acolhimento psicossocial realizado no ano passado, com 250 universitários da instituição mostrou que 18,4% deles já tiveram pensamentos suicidas algumas vezes e 8,8% pensam no assunto com frequência.

O projeto foi coordenado pela Estratégia de Promoção à Saúde, à Convivência e a Diversidade da Comunidade Universitária (Sacodi), uma ação desenvolvida pela Diretoria de Assuntos Comunitários (DCT) da Pró-Reitoria de Recursos Humanos (PRH). Contou também com a parceria do Departamento de Psicologia (DPI), e do Programa de Pós-Graduação em Educação Física. 

O acolhimento psicossocial foi oferecido a todos os estudantes das graduações da UEM. Foram abertas 250 vagas para o atendimento multidisciplinar que contou com psicólogos, assistentes sociais e profissionais de educação física. 

Durante esse trabalho, a professora doutora Renata Heller de Moura do DPI coordenou uma pesquisa de indicadores psicossociais com os inscritos para o acolhimento. 

O levantamento mostrou que as mulheres foram maioria na busca por ajuda, 75,67% dos participantes do estudo. 20,94% eram homens, 0,67% homens trans e 2,7% não-binário. Em relação ao sono, 41,9% responderam que estão moderadamente satisfeitos. 26,4% pouco satisfeitos. 20,3% dos questionados disseram que frequentemente têm o sono agitado e 22,3% têm insônia regularmente. 

A pesquisa mostra também que 83% dos entrevistados faz uso de algum medicamento. 51,4% consomem bebida alcoólica de uma a três vezes por semana. E 13,5% admitiram usar substâncias ilícitas, a maconha ficou no topo da lista com 85%. 

Quanto à ideação suicida, 43,2% disseram que nunca tiveram. 18,4% responderam que tiveram algumas vezes e 8,8% que têm com frequência. 20,2% responderam estar desesperançosos e 35,1% revelaram que têm anedonia, que é a dificuldade ou incapacidade de sentir prazer. 

Embora a maioria, 70,3%, afirme ter interesse por atividade física, apenas 16,9% se exercitam regularmente de uma a duas vezes por semana. 63,5% não praticam nenhum tipo de exercício físico. 

Nesse projeto, 122 pessoas concluíram o tratamento, 21 foram redirecionadas de fluxo na rede interna e 12 ainda permanecem em atendimento.

Próximos passos

Para a diretora da DCT, Telma Maranho Gomes, o resultado desse trabalho foi muito positivo e o objetivo agora é manter e aumentar o atendimento. “Nós estamos avaliando, no âmbito da Sacodi, a necessidade de ampliar cada vez mais o trabalho de acolhimento coletivo. Porque muitos dos alunos que vêm pelo acolhimento individual, na verdade, estão precisando ter um espaço de mais diálogo, convivência e fortalecimento de vínculos. Nós estamos também com essa experiência dos grupos de promoção da saúde então nós temos esse objetivo de ampliar cada vez mais e muito articulada aos projetos de extensão ligados à cultura, esporte e aos demais projetos para avançar nessa questão da convivência”, explica ela.

A recuperação e o fortalecimento da convivência social são pontos importantes na atenção à saúde mental da comunidade acadêmica, bastante prejudicada durante a pandemia, segundo a diretora. “Nós temos uma diversidade enorme de grupos na UEM que podem potencializar cada vez mais esse conhecimento dos alunos e o pertencimento junto a UEM. Porque nos dois anos de pandemia tivemos um distanciamento enorme e agora é o momento de resgatar com toda força. Eu acho que esse trabalho é fundamental e precisa ter continuidade. Temos que avançar cada vez mais no trabalho de prevenção e promoção da saúde”, finaliza.