Tratamento de câncer: pandemia agrava disparidades entre redes pública e privada

“Se eu tivesse no SUS eu tinha morrido”. Foi assim que a empresária do ramo de eventos, Márcia Avelino, de 50 anos, descreveu sua experiência com o tratamento do câncer durante a pandemia por covid-19. Assim como outras áreas da saúde, a oncologia foi fortemente impactada pelo novo coronavírus, que também agravou as disparidades entre as redes pública e privada no diagnóstico e processo de cura da doença, que atinge mais de 600 mil brasileiros todos os anos. 

Um dos principais procedimentos para diagnóstico do câncer, as biópsias, tiveram uma redução de quase 40% entre março e dezembro de 2020 se comparado com o mesmo período em 2019, segundo o Oncoguia. Já no primeiro ano de pandemia, a estimativa é de que ao menos 50 mil brasileiros deixaram de ser diagnosticados com a doença por causa das complicações causadas pela covid-19. 

Estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) aponta para 625 mil novos casos no triênio 2020-2022. O câncer de pele não melanoma será o mais incidente (177 mil), seguido pelos cânceres de mama e próstata (66 mil cada), cólon e reto (41 mil), pulmão (30 mil) e estômago (21 mil). 

Impacto da pandemia no diagnóstico e oferta de tratamento

Maria Ignez Braghiroli, que faz parte da diretoria da Sociedade Brasileira de Oncologia (SBOC), conta que quanto mais cedo for realizado o diagnóstico do câncer, maiores são as chances de cura do paciente. Apesar de a demora para identificar a doença não ser algo novo no Brasil, a pandemia agravou ainda mais esse problema que pode ter custado muitas vidas. “Então provavelmente nós perdemos pessoas sem nem mesmo ter o diagnóstico”, afirma a oncologista clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp). 

Entre os motivos dessa ausência de diagnósticos, a médica ressalta a falta de recursos dos hospitais, sobretudo na rede pública de saúde: “Quando a gente olha para o setor público a própria disponibilidade de recursos é muito reduzida”.

Ela afirma que em função das necessidades estruturais dos hospitais para atender às demandas da pandemia, unidades de saúde tanto das redes particulares quanto das redes públicas tiveram que diminuir a oferta de leitos para pacientes com outras complicações, de modo a possibilitar a entrada de mais pessoas com covid-19. Dessa forma, além da dificuldade de diagnosticar o câncer, a parcela da população que precisava de tratamento ou outros procedimentos médicos para tratar dessa doença, não teve acesso a rede de saúde. “Por que aquele que precisa de cirurgia não tem a cirurgia disponível, aquele que precisa de algum procedimento também não tem nem leito pra isso, não tinha ambulatório pra isso”, ressalta a oncologista.

“O Hospital das Clínicas [de São Paulo] virou um ‘covidário’, o hospital parou de fazer tudo que fazia para internar covid”, afirma Maria Ignez. 

Márcia Avelino, diagnosticada com câncer de mama em 16 de dezembro de 2020, pouco mais de 9 meses após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar pandemia por covid-19, relata que na rede particular, apesar de não ter sofrido problemas para realizar o tratamento contra o câncer, como o adiamento ou cancelamento de exames, os hospitais não tinham estrutura necessária para atender aos pacientes: “Minha última internação ela foi dia sete de novembro. Eu com tudo marcado, entrei via PS [pronto-socorro] para ser internada às 20h30 da noite. E subi para o meu quarto 5h da manhã. Os hospitais não estavam estruturados para essa demanda”.

Medo e adaptações em função da pandemia

Para Maria Ignez, o medo da covid-19 foi algo muito presente durante o tratamento de pacientes ao longo da pandemia, tanto da rede pública como da rede privada, pois mesmo que o risco de contrair a doença seja o mesmo para uma pessoa saúdavel ou uma pessoa com câncer, “quem tem um diagnóstico oncológico tem um risco maior de ter uma doença [novo coronavírus] mais grave”. 

Segundo a médica, muitos de seus pacientes se questionavam quanto a dar continuidade ou não ao processo de tratamento do câncer, havendo a necessidade de ponderar, caso a caso, o que era mais importante no momento: a atenção à doença e o risco de contrair a covid-19. A oncologista destaca, no entanto, a grande diferença em percepção da doença entre pacientes que recorreram ao atendimento público ao invés do privado: “Eu tive pacientes que chegaram no pronto-socorro com tumor de colon mais avançado por exemplo, algo que normalmente você não encontra no setor privado. Eles tem um acesso muito mais fácil a saúde”.

A médica também relata que diversos tratamentos tiveram de ser adaptados para se encaixar nos novos padrões de vida durante a pandemia. “Mudamos um pouco o tratamento de algumas doenças quando era possível. Por exemplo, diminuir a quantidade de sessões de radioterapia. Se era possível mudar um tratamento pra uma opção de via oral, isso também era feito”.

Márcia também conta que o tratamento da doença não foi fácil, principalmente pelas restrições e complicações do novo coronavírus.

“Ao longo desse ano, eu fiquei 123 dias internada. foram quatro meses de internação, entre indas e vindas, né? Então, assim, eu senti muito a pandemia porque, por exemplo, eu tenho que ficar sozinha no hospital, não podia ninguém ficar comigo e eu não queria que ninguém ficasse comigo, por que já bastava eu no hospital correndo risco [de contrair covid-19]. Eram dias e dias e dias, eram internações de semanas, de quinzenas. A única coisa que você tinha, literalmente, era o seu celular e as ligações de vídeo”, relembra.

Mudanças para 2022

Pensando no tratamento de câncer em 2022, Maria Ignez afirma que a pandemia, atualmente, “já não tem um impacto tão grande no setor privado de saúde” e que há uma confiança maior dos pacientes em realizar os procedimentos. “Nos hospitais privados basicamente não se tem grandes alas reservadas para a covid. Nesse sentido a gente já está muito próximo de um normal”, afirma da oncologista.

Contudo, para ela, as disparidades entre o setor público e privado no tratamento de câncer ficaram ainda mais escancaradas com a pandemia: “No setor público a gente já tinha um gargalo muito gargalo muito grande, onde o tempo de diagnóstico já era muito maior do que o ideal, até por isso que se estabeleceu a Lei dos 60 dias” – lei garante que pacientes com câncer devem ter acesso ao primeiro tratamento da doença em até 60 dias após o diagnóstico do SUS -.

Com a pandemia, a oncologista afirma que “mais do que nunca a gente tem que tentar estabelecer uma avaliação para os pacientes na rede básica, que ele possa ser direcionado”, de forma a priorizar o diagnóstico dos pacientes para que tenham acesso aos tratamentos de forma mais precoce, pois, para ela, pacientes e médicos devem ter a “agilidade em mente” ao se falar do processo de cura do câncer.

SBT News entrou em contato com o Ministério da Saúde para obtenção de dados atualizados sobre os indicadores ddo tratamento de câncer durante a pandemia. A pasta não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Informações de SBT News