Doação de fígado: número de órgãos ainda é insuficiente

O Brasil tem quase 57 mil pacientes aguardando transplantes de órgãos ou tecidos. No terceiro lugar na fila em termos de número de pessoas em espera, o transplante de fígado fica atrás somente das doações de rim e córnea. Os dados foram divulgados neste ano pelo Ministério da Saúde durante o lançamento do Programa de Qualidade no Processo de Doação e Transplantes (QualiDot). 

De acordo com as informações, a fila cresceu 7% em comparação com setembro de 2021, quando havia cerca de 53,3 mil pacientes na espera. O aumento foi de 27% em relação a agosto de 2019, quando 44,7 mil estavam inscritos para receber um órgão ou tecido.

Alto número de pessoas na fila, subaproveitamento do órgão doado e falta de informação são alguns dos obstáculos enfrentados pelo paciente e pelo médico hepatologista quando o assunto é doação de fígado. 

Dados divulgados pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) mostram que a quantidade de procedimentos feitos anualmente aumentava desde 2017, mas houve um recuo nos últimos dois anos por conta da pandemia. Os números de transplantes realizados no 1º trimestre de 2022, no entanto, cresceram 3% em comparação com o mesmo período no ano passado. 

O QualiDot reclassifica os centros transplantadores do país. Assim, os estabelecimentos devem avaliar seus serviços de transplantes de órgãos e de medula óssea a partir de indicadores de qualidade e de volume. Para aderir ao programa, hospitais precisam fazer atividades transplantadoras há pelo menos dois anos.

Fígados não transplantados

A comunidade médica esclarece ainda que há a possibilidade de os fígados serem subaproveitados devido a características intrínsecas dos próprios doadores — idade, obesidade e doenças prévias, por exemplo — e outros fatores, como anormalidades anatômicas, lesões causadas durante a extração para doação, lesões vasculares e acúmulo de gordura interna. 

Dos 3.768 doadores falecidos em 2019, somente 2.245 fígados estavam em condições adequadas para a efetivação dos transplantes — uma diferença de 40%. Os dados constam no artigo “Descarte de fígados de doadores no Brasil: como otimizar sua taxa de utilização em transplantes?”, publicado na revista científica Einstein (São Paulo) em 2021. 

Mesmo com a pandemia, é possível constatar um aumento das doações. Entre 2009 e 2019, houve um crescimento no número de transplantes de fígado (de 1.603 para 2.245), de doadores falecidos (2.406, em 2012, para 3.768) e de equipes especializadas no procedimento (59, em 2009, para 74, em 2019). 

Apesar do quantitativo positivo, existe uma constante disparidade entre o número de transplantes de fígado feitos e o necessário. 

Conscientização sobre transplante de órgãos

Pesquisa conduzida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) aponta que o principal impedimento para a doação de órgãos no Brasil é a recusa familiar. Em 2021, segundo a ABTO, 43% das famílias negaram a doação de órgãos de seus parentes após morte encefálica comprovada.

A falta de conhecimento sobre a condição é uma das maiores causas dessa recusa. Vale lembrar que a morte encefálica é a perda total e irreversível das funções cerebrais, definida pela cessação completa das funções corticais e de tronco cerebral. A constatação é feita por médicos com capacitação específica, a partir de critérios padronizados e precisos. 

Quando ocorre o diagnóstico de morte encefálica, a família é quem fica incumbida de decidir sobre a doação dos órgãos. 

Jorge Padilla, coordenador do setor de transplantes da Santa Casa de São José dos Campos, destaca que, por se tratar de um momento tão delicado, o assunto deve estar em pauta ao longo da vida para que as pessoas se conscientizem sobre o valor da doação de órgãos.

Em comunicado à imprensa, ele afirma que o número de doações ainda não é suficiente para suprir quem está na fila de espera, e que o desconhecimento sobre a doação de órgãos dificulta a questão. Além disso, cada doador pode salvar oito vidas ou mais. Por fim, enfatiza a importância de alertar sobre a prevenção de doenças que tenham como única alternativa de tratamento o transplante.

As equipes médicas não convencem uma família a doar, mas trabalham a partir da conscientização da doação de órgãos e tecidos.

O material doado beneficia pacientes que estão na fila de transplantes do Sistema Único de Saúde (SUS). Quando autorizada a doação pela família, os centros transplantadores são comunicados.

Dessa forma, apenas indivíduos inseridos no cadastro único e que sejam compatíveis com o doador podem receber o órgão. A princípio, a doação é ofertada a pacientes dentro do estado. Se não encontrar um receptor compatível, direciona-se a outros pontos do país.